17/09/2017 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Inteligência Emocional e Meio Ambiente

"Como eu reconheço o grande desastre que é minha mente autocentrada e insatisfeita

que pouco se preocupa com o outro e com o meio ambiente para satisfazer minhas necessidades?"

Alexandre Saioro

Recentemente li a notícia de que no dia 2 de agosto a humanidade oficialmente esgotou todos os recursos disponíveis no planeta para 2017. Este foi o Dia de Sobrecarga da Terra deste ano que informa quando a demanda anual por recursos naturais excede o que o planeta pode regenerar. Desde 2001, este dia vem sendo antecipado, em média, três dias a cada ano. Só pra se ter uma idéia, em 2000 o Dia de Sobrecarga da Terra foi em 5 de outubro.

Esta notícia é um alerta para as urgentes mudanças que nossa sociedade precisa fazer em sua maneira de viver neste planeta. Mas parece que por mais que estejamos sendo avisados isto não está trazendo mudanças significativas. Creio que isto está acontecendo porque não se está dando a devida atenção ao principal fator que gera esta situação: a nossa falta de inteligência emocional.

Sejam quais forem as áreas que achemos que precisam de mudanças, todas elas passam pela nossa mente e coração. Desde as diretrizes estabelecidas pelos senhores e senhoras que comandam a política e a economia mundial até ao consumidor que anseia por um produto novo, tudo passa pela inteligência ou confusão emocional.

Por exemplo, quando se fala em sustentabilidade, consciência ambiental e consumo consciente, é comum ouvirmos dicas e conselhos do que é preciso mudar em nossos hábitos e atitudes pessoais. Mas como eu mudo meus desejos, condicionamentos e, porque não dizer, vícios? Como eu reconheço o grande desastre que é minha mente autocentrada e insatisfeita que pouco se preocupa com o outro e com o meio ambiente para satisfazer minhas necessidades?

Hábitos e atitudes se instalam em nossa mente e coração a partir de nossa constante busca por satisfação e segurança. Portanto, mudar nossas relações na sociedade e com meio ambiente requer trabalhar com estas questões. E como eu faço isto? Como eu posso me sentir mais satisfeito e seguro para não criar mais degradação, conflitos e desconsideração para com o meu próximo e o meio ambiente? Como faço para ampliar minha empatia e compaixão?

Muito se fala em soluções científicas e políticas, mas não se fala em oferecer para o indivíduo um conhecimento interior que estimule nele novas formas de contentamento e bem-estar pessoal, assim como desenvolver empatia e sensibilidade para as necessidades do “outro” - do planeta e todos os seres que nele habita.

Apenas saber intelectualmente o que é certo ou errado fazer não basta. Toda mudança em nosso fazer depende de um saber interior que perceba e saiba lidar com os impulsos e hábitos emocionais que não obedecem a um simples saber intelectual. Sem esta capacidade, facilmente caímos nos mesmos erros ao tentar solucionar os problemas que enfrentamos. E esta capacitação emocional começa com o desenvolvimento da atenção que é capaz de reconhecer a tendência autocentrada com suas armadilhas reativas que levam a muitas auto-ilusões.

Na maior parte do tempo funcionamos no piloto automático, pouco conscientes do que se passa em nossa mente. Reagimos às situações e fazemos escolhas a partir de desejos, crenças e valores que nem sempre achamos ser o correto ou que não correspondem à realidade das situações. Movidos por esta mente reativa, não percebemos nossas tendências habituais e condicionamentos para poder mudá-los e, assim, facilmente nos iludimos achando que estamos agindo com liberdade de escolha. Com este tipo de mente acabamos manipulados pelos estímulos que nos chegam e por nossas percepções equivocadas da realidade.

Às vezes acho que todo este movimento atual por uma sociedade sustentável está envolvido com este processo reativo e auto-iludido, pois ele não tem tocado na raiz do problema. Muitas campanhas emocionalistas não causam o efeito que deveriam em determinadas mentes, muito pelo contrário. Daniel Goleman explica em seu livro Inteligência Social que sem uma atenção desenvolvida não temos como ter empatia e compaixão. Por isso por mais que tentemos sensibilizar as pessoas, sem atenção o que foi despertado não é aprofundado e é esquecido rapidamente, e sem ser aprofundado acaba facilmente distorcido e corrompido por lógicas de nossos hábitos de percepção autocentrados .

Não vejo outra forma de sairmos deste modo de vida insustentável que não seja através de um massivo treinamento em inteligência emocional que estabeleça uma mente que saiba mudar os impulsos e condicionamentos que ditam nossos desejos, necessidades e ações no mundo. A partir desta mente hábil é que será possível ao indivíduo a descoberta de um real contentamento e satisfação e uma ampla capacidade de empatia e compaixão e no reconhecimento de que nosso bem estar pessoal só pode ser pleno e duradouro na medida em que promovamos o bem-estar do meio ambiente natural e da sociedade de que somos parte. E isto não se realiza apenas com informação, campanhas e educação formal. É preciso um trabalho de desenvolvimento/treinamento de nossa mente através de práticas interiores, meditativas e contemplativas que aprofunde novos valores e hábitos de percepção e fortaleça nossa ATENÇÃO para diminuir a nossa tendência a distração e assim possamos estar focados no implemento de novos hábitos, VIGILÂNCIA para que não deixemos que a força dos hábitos antigos nos dominem e corrompam nossas ações e CUIDADO para manifestar as novas atitudes sustentáveis de forma compassiva, correta e amplamente benéfica.

Este é um trabalho que deve ser realizado não só com a população em geral, mas principalmente com a nova geração de empresários, executivos, economistas, políticos, governantes e seus filhos para que eles não repitam os erros de seus pais e antepassados. Isto porque, se este grupo da elite do planeta não mudar sua maneira de ver, viver e se relacionar o que vamos sustentar em nosso planeta é a hipocrisia manipuladora vigente.

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Alexandre Saioro é nstrutor de meditação e iniciou sua prática de meditação em 1986 com Don K. Jayanetti e Venerável Puhuwelle Vipassi na Sociedade Budista do Rio de Janeiro. Desde 1993 é praticante do Budismo Tibetano quando tornou-se aluno de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche de quem recebeu iniciações, ensinamentos e treinamento em meditação em diversos retiros. Jornalista especializado na área da saúde, edita há 23 anos do Jornal Bem-Estar.

Por: Alexandre Saioro