24/06/2017 Noticia Anterior

A desqualificação da política no Brasil e a questão econômica

"Cria-se midiaticamente um ambiente de desgaste, desmoralizam-se as instituições políticas, empodera-se até o esgotamento de credibilidade o judiciário e, com isso, abre-se espaço para interesses econômicos que, em condições normais, não se toleraria."

Ricardo Lengruber

Não há mais notícia no Brasil que não seja sobre escândalos na política. Por isso, a tendência geral é criminalizá-la. E, de fato, a classe política chafurdou-se de tal forma que se auto-inviabilizou.

Essa desqualificação, porém, se dá por razões de natureza também política. Há na ordem do dia um projeto político sendo esculpido. O que se intenta fazer é mudar apenas os atores. O enredo se manterá.

A tese da moralização não se sustenta. Há rumores sobre operadores do poder judiciário envolvidos em corrupção. A ausência de investigações consistentes é reveladora. O judiciário também é político.

Aliado a isso, a grande imprensa faz seu trabalho sistemática e seletivamente. A notícia não é, por sua natureza mesma, neutra. O que é notícia o é a serviço de algo. E esse “algo” é sempre político. Valeria aqui refletir sobre a tal “pós-verdade”.

Alem disso, não se deve elidir da reflexão o fator econômico. Não há independência entre política e economia. Quem serve a quem, todavia, é a questão central. Na sociedade capitalista, a política é um braço institucional das grandes corporações econômicas.

Assim, tem-se o seguinte: cria-se midiaticamente um ambiente de desgaste, desmoralizam-se as instituições políticas, empodera-se até o esgotamento de credibilidade o judiciário e, com isso, abre-se espaço para interesses econômicos que, em condições normais não se toleraria.

É por esse conjunto de fatores, inclusive, que discursos extremistas ganham força. Fascismos variados colocam a cabeça para fora. E são um risco cada vez mais factível.

Talvez as promessas em torno do petróleo do pré-sal sejam o pivô de tudo isso. O setor energético, além de estrategicamente importante para qualquer sociedade, é, do ponto de vista econômico, o que há de mais rentável nas próximas décadas (ao lado do sistema financeiro). Um governo do campo progressista e com algum recorte nacionalista não é exatamente o que as grandes corporações internacionais desejam num país sentado sobre bilhões de barris de petróleo. Por razões semelhantes, Venezuela e Síria (cada uma com seus próprios modelos) têm pago altos preços - humanos, sobretudo.

A defenestração de Dilma e a eventual condenação de Lula não têm a ver exclusivamente com “combate à corrupção”. O buraco é mais embaixo (em águas muito profundas). Temer seria um braço útil no processo. Mas numa caça às bruxas dessa envergadura não dá para se ter controle milimétrico de tudo. Sua saída será rapidamente suprida por um personagem tão útil quanto - mesmo que para isso tenha que se mudar a Constituição ou, pior, instalar-se alguma exceção no Estado.

Para aquém da grande questão econômica energética, setores internos (políticos e econômicos) aproveitam o desgaste do Estado - solapado de acusações de corrupção - para implementar uma agenda de privatizações, de austeridade orçamentária e recuo nos direitos sociais. É o mundo perfeito para a radicalização de pautas que, nas urnas, seriam (como foram) derrotadas.

Agora, partindo-se do princípio que o país tem riquezas econômicas sedutoras aos interesses globais e que possui uma população expressiva, há que se considerar algo de positivo nisso tudo. É possível um movimento de (re)construção nacional. E esse movimento só será bem sucedido se o for pelo viés político.

Eis diante de nós o desafio: como reconstruir a política em um mundo cujo maior valor é o dinheiro? Negar o aspecto econômico, além de inocente, é inviável. Tratá-lo pelas vias já conhecidas (do socialismo teórico clássico ao neoliberalismo de mercado) é mais do mesmo. Temos, portanto, uma agenda: realinhar a política de modo a fazer com que a economia esteja a serviço das pessoas (e não o contrário). Essa agenda, gostemos ou não, é fundamentalmente política.

Por: Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”