02/07/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Promissores ventos de mudanças políticas vindos da Espanha

Barcelona passa a ser governada pela ativista antidespejo Ada Colau

“Disseram nas praças que, sim, é possível, e nós dizemos hoje que podemos.” (Pablo Iglesias)

Sandra Mara Ortegosa

Os novos e promissores ventos de mudanças políticas, vindos da Espanha, renovam as esperanças em corações e mentes mundo afora, emergindo como um possível marco histórico de início de uma nova era pós-partidos. A perda de legitimidade dos políticos e a crise moral que vem corroendo o sistema político-partidário são as causas principais da explosão dessa mudança em curso na Espanha e que teve origem nas gigantescas manifestações dos “indignados”, movimento também conhecido como 15M, em maio de 2011.

Desde então, estamos presenciando um verdadeiro terremoto político nesse país, com o surgimento de novos atores políticos, como o movimento “PODEMOS”, e o declínio irreversível do bipartidarismo representado pelo PP (Partido Popular), partido de direita que ocupa o poder, e pelo partido de oposição PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol). O pano de fundo desse quadro é o sentimento de indignação da maior parte da sociedade espanhola em relação às políticas de austeridade impostas pelo atual governo do PP, pelo anterior do PSOE e pela troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu), ao mesmo tempo em que vinham à tona denúncias dos esquemas de corrupção envolvendo empresários e políticos desses partidos.

Neste 24M (24 de maio de 2015), quatro anos após o 15M, as eleições regionais e municipais para governadores, prefeitos e vereadores, encerram um ciclo de 40 anos de hegemonia desses partidos tradicionais na Espanha. Madri e Barcelona, as principais cidades espanholas, passam a ser governadas por duas mulheres indignadas e de esquerda, ativistas ligadas aos movimentos sociais que eclodiram com os protestos do 15M. A cidade de Madri, que há 24 anos vinha sendo governada pelo PP, passa agora a ser comandada pela ex-juíza Manuela Carmela, do Ahora Madrid; e Barcelona passa a ser governada pela ativista antidespejo Ada Colau, do movimento Barcelona in Comú (Barcelona em Comunidade).

Além de Madri e Barcelona, os governos de esquerda também saíram vitoriosos em Zaragoza e Valência, com propostas de diminuição das desigualdades sociais, interrupção dos despejos, paralisação das “operações urbanísticas” privatizantes, etc. Como afirmou Íñigo Errejón, um dos fundadores do Podemos: “As principais cidades estão nas mãos de forças políticas e de lideranças que defendem a mudança de 180 graus, pela transparência e por políticas a serviço da maioria empobrecida”.

Enfrentando o desafio de converter a indignação social em mudança política, o Podemos, fruto do 15M, tenta captar as principais demandas sociais desde a crise econômica de 2008 em seu programa de governo, tais como: recuperação dos sistemas públicos de educação e saúde; incentivo à reindustrialização e à construção civil voltada para as demandas da população carente; reversão da curva declinante do poder aquisitivo dos trabalhadores, através de reajustes salariais.

Desde sua fundação, no início de 2014, com um claro propósito de colocar em prática uma nova forma de se fazer política, o Podemos vem crescendo de forma surpreendente. Com foco no protagonismo popular e cidadão, utiliza a internet como principal ferramenta política, além de possuir uma rede social interna (intranet) para que todos que se inscrevam possam participar da construção do programa, de forma colaborativa, assim como dos debates, mobilizações e decisões políticas. Diferencia-se em muitos outros aspectos dos partidos tradicionais, como na rejeição ao financiamento de empresas (principal fonte dos esquemas de corrupção política), recorrendo a doações voluntárias para as campanhas (crowfundings); na alternância de candidaturas entre homens e mulheres; e por ter uma estrutura horizontal (sem “caciques”) e conectada em rede.

Um dos exemplos dessa nova forma de se fazer política é o da construção da candidatura cidadã de Ada Colau pelo Barcelona in Comú, que agrega o Podemos, o Ganhemos e outros partidos, além de lideranças sociais de bairros, configurando-se como uma nova formação política com participação ativa dos movimentos sociais. Colau tornou-se conhecida por liderar um movimento de moradia que luta contra o despejo de inquilinos que não conseguem pagar a hipoteca aos bancos em meio à forte crise econômica que afeta a Espanha.

A nova prefeita de Madri, Manuela Carmena, como nos informa Bernardo Gutierrez, “confirma em cada gesto que outra forma de fazer política é possível. Viaja de metrô. Se locomove de bicicleta. Não ataca os inimigos. Escuta. Um de seus tweets no dia da eleição, sem teorizar, resume a alma agregadora das novas confluências: ‘No tengáis miedo ni dejéis que os asusten. Ser felices es nuestra unica venganza. Participad y sigamos adelante ‪#‎Eleccion2015”- Manuela Carmena (@ManuelaCarmena) Maio 24, 2015.”

Para Pablo Iglesias, um dos fundadores do Podemos e seu maior expoente, o resultado dessas eleições históricas demonstra que o Podemos está em condições de disputar a vitória nas próximas eleições gerais, acrescentando que estão de “mãos estendidas” a qualquer força política que se comprometa a dar um giro de 180 graus na política de cortes sociais. Os programas de Carmena e Colau, por exemplo, contemplam a luta contra a pobreza urbana e a desnutrição infantil, a interrupção dos despejos, auditoria das contas públicas, destinação de imóveis vazios para famílias de baixo poder aquisitivo, revisão das privatizações, e a garantia de fornecimento de água, luz e eletricidade aos mais afetados pela crise.

Segundo uma pesquisa do jornal El País, se as eleições para presidência na Espanha fossem agora, o candidato do Podemos seria vitorioso, destronando o PP e o PSOE. Sempre que indagado sobre as possibilidades de vitória, Iglesias afirma com convicção:

“Claro que si, podemos!”

Vamos torcer para que esses novos ares também cheguem ao Brasil e que consigamos romper com o bipartidarismo inercial (PT x PSDB) que se instalou em nosso cenário político há duas décadas, impondo-nos escolhas de forma plebiscitária a cada dois anos, com a construção de candidaturas políticas cidadãs, que realmente nos representem. Estamos num momento crucial de mudanças de paradigmas e um dos pré-requisitos mais urgentes para o aprofundamento da democracia é a substituição do obsoleto sistema de representação político-partidária por novas formas de se fazer política, como a cidadania ativa que estamos presenciando nesse momento auspicioso da Espanha.

Por: Sandra Mara Ortegosa é arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP