03/03/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Se não despertares, não verás país nenhum!

"A solução encontra-se, portanto, na interrupção do desmatamento e na recuperação das matas ciliares nas margens dos rios e a vegetação de topo de morro, que preserva as nascentes e evita a erosão do solo."

Sandra Mara Ortegosa

A assustadora crise da água que estamos presenciando na região sudeste do país, nesse momento, vem sendo alertada há décadas por inúmeros ambientalistas e pesquisadores das mudanças climáticas em curso no planeta. No ano passado, o estado de São Paulo enfrentou recordes de seca e de calor. Há poucos meses, a apenas 100 km da capital, em Itu, caminhões pipa circulavam sob escolta armada, enquanto a cidade fedia a esgoto, fazendo-nos pensar que Mad Max é aqui e agora. Precisamos chegar a uma situação extremamente crítica e amedrontadora, que vem afetando principalmente as duas maiores metrópoles do país – São Paulo e Rio de Janeiro -, para que nossos governantes e a população tomassem consciência da sua gravidade e começassem a se mobilizar para evitar um desastre maior.

Em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão, prenunciou em seu livro “Não Verás País Nenhum”, a realidade catastrófica que o Brasil parece estar prestes a mergulhar: um país devastado pelas mudanças climáticas, sem florestas, sem água, calor insuportável, falta de alimentos, urina reciclada no lugar de água, governo autoritário, ricos vivendo em guetos privilegiados e pobres em periferias miseráveis, etc. Nessa ficção não faltou, inclusive, um museu da água, com amostras das águas dos rios que um dia existiram.

São Paulo pode vir a se transformar num dos casos mais emblemáticos dessa crise “profetizada” por Ignácio Loyola Brandão. Fruto de um crescimento acelerado e sem planejamento, a metrópole espalhou-se como mancha de óleo, ocupando de forma irregular áreas de mananciais e margens de rios; devastando áreas verdes; impermeabilizando cada vez mais o solo; poluindo, canalizando e enterrando os cursos d’água. Nesse processo de urbanização selvagem e predatória restaram apenas aproximadamente 20% da Mata Atlântica nas áreas de mananciais da metrópole.

Para garantir sua reeleição, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) omitiu a dimensão do problema, deixando de tomar as providências necessárias para evitar o pior. Como chegamos a uma situação limite, cogita-se um rodízio drástico no abastecimento de água a partir do mês de abril, com dois dias com água e cinco sem, o que inevitavelmente irá atingir em maior grau os bairros mais pobres. Um projeto governamental de construção de cisternas e caixas d’água nesses bairros poderia ajudar a amenizar o problema. No caso do Rio de Janeiro, se o consumo não diminuir imediatamente, os cariocas também poderão enfrentar rodízios drásticos como o que São Paulo pretende adotar.

A causa estrutural dessa crise, no entanto, vai além da péssima gestão administrativa dos recursos hídricos (no estado de SP a própria SABESP desperdiça 32% da água que distribui) e encontra-se na destruição de nossas florestas, gerando a diminuição da umidade atmosférica e a elevação da temperatura. A Amazônia é extremamente importante para o equilíbrio climático do planeta: a floresta transfere 20 bilhões de toneladas de água para a atmosfera diariamente através de sua transpiração, o que equivale a uma quantidade maior que a do Rio Amazonas. Segundo o pesquisador Antonio Nobre, autor do estudo “O Futuro Climático da Amazônia”, a Floresta Amazônica já perdeu uma área equivalente a três estados de São Paulo e as medições não deixam dúvidas de que esse desmatamento colossal já altera o clima na própria região. Em entrevista à Revista Época, Nobre afirmou que “o fato de o sistema climático estar mostrando claros sintomas de desarranjo já deve indicar que chegamos ao limite. (...) Agora, a resposta sobre quanto tempo ainda temos é um categórico: nenhum! Acabou-se o prazo para complacência e procrastinação em relação ao desmatamento. Eu não saberia dizer se já passamos do ponto de não-retorno, a partir do qual desceremos forçosamente no abismo climático, mas quero crer que temos ainda a oportunidade de mudar de curso e evitar o pior. Por isso, proponho um ‘esforço de guerra’ no esclarecimento da sociedade, primeiro, e então no combate vigoroso ao desmatamento. Mas somente zerar o desmatamento para ontem já não será suficiente. Se queremos ter alguma chance de sucesso, precisamos ‘replantar e restaurar’ florestas por todo o país. Essa é a melhor apólice de seguro que podemos comprar.”

A solução encontra-se, portanto, na interrupção do desmatamento e na recuperação das matas ciliares nas margens dos rios e a vegetação de topo de morro, que preserva as nascentes e evita a erosão do solo, com espécies nativas e não eucaliptos, que contribuem para agravar ainda mais o problema, absorvendo grandes quantidades de água e de nutrientes do solo. A situação de pré colapso em que se encontra a metrópole de São Paulo, carro-chefe da economia nacional, pode se tornar a chave para uma mudança de paradigmas, com a adoção de atitudes mais sustentáveis, e a oportunidade de recuperarmos parte da Mata Atlântica, como fez a prefeitura de Nova York ao adquirir áreas montanhosas na região dos mananciais, reflorestando-as para garantir segurança no abastecimento de água da cidade. A hora é agora e já está passando: se não despertares, não verás país nenhum!

Por: Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP.