03/03/2015 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Comunidade de Nova Friburgo se manifesta sobre o corte das árvores centenárias

O que é de todos

“O que é de todos não se toma à força, não se desfigura, nem se põe à venda; Ao que é de todos não se dá um futuro incerto. Porque o que é de todos fala de quem somos: coletivo de árvores, animais e gente”.

Texto do Movimento: “Abraços às árvores” - SOS Praça Getúlio Vargas

Em meados de Janeiro deste ano; em um período de férias, restrita divulgação e inexistente discussão popular a respeito da proposta da Prefeitura para a revitalização da Praça Getúlio Vargas; fomos surpreendidos com as derrubadas indiscriminadas dos eucaliptos centenários (Eucalyptus robusta) que formam o significativo e singular conjunto paisagístico tombado pelo IPHAN em 1972 . O projeto da praça foi encomendado ao botânico e paisagista francês, Auguste François Marie Glaziou, o mesmo que projetou a reforma dos jardins da Quinta da Boa Vista, do Passeio Público e, do Campo de Santana, na cidade do Rio de Janeiro.

Perplexos, consternados e assustados com a destruição radical de 2/3 da praça; um grupo de profissionais liberais, artistas, historiadores, ambientalistas, cidadãos e amantes de Nova Friburgo, resolveram se manifestar. O movimento ABRAÇO ÀS ÁRVORES – SOS PRAÇA GETÚLIO VARGAS, organizado através da internet, de base apartidária, foi aos poucos crescendo, marcando presença, dialogando com a sociedade e, sendo enriquecido aos poucos por uma leitura crítica a respeito do que presenciavam.

Ao longo de aproximadamente 30 dias ocupando a praça, e presentes nos dias específicos dos serviços de corte e poda, foram notando graves imperícias, tais como: Serviços sendo conduzidos por Serraria sem especialização em manejo florestal; eucaliptos saudáveis sendo derrubados; ausência de profissionais especializados para acompanhamentos; podas drásticas errôneas e sem critérios técnicos; licenças, autorizações e exames fitopatológicos sem a disponibilização de métodos comprovadamente profissionais; serviços executados sem as devidas boas práticas em segurança; informações distorcidas e/ou não fornecidas; enfim, um cenário desprovido de segurança, transparência, critérios técnicos e esclarecimentos pertinentes àquela ação desproporcional.

Diante de tantas evidências de despreparo, da falta de informações aprofundadas, do discurso único do medo, de que era preciso derrubá-las a qualquer custo em prol da segurança humana, do silêncio angustiante do IPHAN, da omissão clara de organizações não governamentais locais; o grupo resolveu agir. Foram realizadas inúmeras denúncias, reclamações e solicitação de esclarecimentos a diversos órgãos governamentais. A busca por informações técnicas precisas e justificáveis, o acesso ao laudo da UNESA e ao projeto elaborado pela empresa TECHNISCHE Engenharia/IPHAN, tecnicamente eram imprescindíveis para compreender mais a fundo os meandros do que se passava. Tudo não parecia estar numa ordem lógica responsável e condizente com o tratamento de um bem público tombado.

No que se refere ao caráter histórico-cultural do Conjunto Paisagístico, os eucaliptos centenários são os principais elementos que justificam o tombamento da Praça. Sem eles perde-se a possibilidade de restaurar e conservar o conceito original do Glaziou e a paisagem tombada, abrindo margem as possíveis intervenções que poderiam descaracterizar o espaço, através da introdução de novos e modernos elementos. Mesmo sendo exóticos, os eucaliptos tiveram a capacidade de se adaptar plenamente à Mata Atlântica, formando um microclima singular e harmonioso, que agrega conforto ambiental e promove a diversidade da fauna e flora. São muitos os aspectos que devem ser considerados numa decisão assertiva em se tratando de um bem tombado, de valor simbólico significativo. Uma delas é de caráter afetivo. A praça tem grande significado na vida da gente, principalmente quando se trata de uma cidade como a nossa, onde tudo gira entorno dela. Praça é sinônimo de liberdade, onde as crianças podem correr sem obstáculos, onde há o lúdico, onde o coração da cidade pulsa. É ali que nos reunimos, encontramos nossos amores, nos divertimos, onde deixamos de pensar e contemplamos a vida. É PRECISO TER DISCERNIMENTO E RESPEITAR O CARÁTER SIMBÓLICO, A ALMA DO LUGAR!!!

Havia e ainda há muitas perguntas sem respostas, pouca transparência e dificuldades na participação das tomadas de decisão que estão sendo acertadas entre o IPHAN, UNESA e Prefeitura (PMNF); muitas evidências que trazem a necessidade de uma averiguação crítica mais aprofundada sobre o conceito de revitalização definido pela PMNF. Além dos cortes irregulares de árvores comprovadamente saudáveis cometidos pela PMNF, existem muitas outras controvérsias observadas a partir da leitura do projeto de revitalização proposto, pouco divulgado e discutido. Trata-se de um projeto elaborado por uma empresa privada (Technische Engenharia) contratada pelo IPHAN; que orienta a derrubada de aproximadamente 104 árvores, sendo cerca de 70 eucaliptos robusta, e o restante árvores e palmeiras nativas. Isso significa a descaracterização total da Praça Getúlio Vargas, e a perda de um patrimônio inestimável.

Como compreender que, o próprio órgão responsável pela conservação do patrimônio, oriente o corte de aprox. 104 árvores tombadas? E mais, como compreender esse Projeto Executivo de requalificação de um bem tombado que em seu artigo 10.4.1 estabelece a derrubada de árvores que causem “interferência com os serviços, ou que venham a ter suas raízes prejudicadas pelas escavações, perdendo a sua fixação”? Além de inúmeras outras questões/evidências, como: a não apresentação de exames fitopatológicos ou resultados de outros exames mais profundos, únicos que poderiam de fato comprovar se as árvores estariam doentes; a realização de um laudo com a Universidade Federal Fluminense - UFF, já que a mesma tem parceria com a PMNF; a discordância entre o laudo da Universidade Estácio de Sá e o projeto do IPHAN; a destinação e volume das madeiras estocadas na Serraria Melodia; entre outras questões consideradas graves pelo movimento.

O movimento em nenhum momento declarou ser contra o corte e as podas de árvores, porém, desde que tivessem critérios muito embasados, e que pudéssemos acompanhar este trabalho.

E infelizmente não foi isso que aconteceu. Diante do que se viu, do total despreparo, das inúmeras perguntas sem respostas as evidências graves protocoladas, do silêncio do IPHAN; o grupo ABRAÇO ÀS ÁRVORES – SOS PRAÇA GETÚLIO VARGAS, tem procurado fazer a sua parte neste processo, pois é direito da comunidade ter acesso às informações relativas ao bem tombado e a toda e qualquer ação empreendida sob a justificativa de sua preservação e manutenção. Igualmente pedimos às autoridades judiciais e aos órgãos envolvidos que favoreçam a formação do diálogo para uma tomada de decisão coletiva e verifiquem junto aos órgãos competentes as autorizações e pareceres necessários à execução deste nefasto e lesivo projeto de requalificação. É preciso, de forma urgente, que haja uma abertura ao diálogo franco e honesto com a população, apresentando os pormenores, os critérios que de fato justificam as derrubadas, as justificativas com um laudo paralelo de especialistas autônomos e, a abertura a discussão por meio de audiência pública sobre a proposta de revitalização. Somente assim, saberemos o que REALMENTE precisa ser feito na Praça Getúlio Vargas, Cartão Postal de Nova Friburgo, conhecida como Catedral dos Eucaliptos.

Por: Texto elaborado coletivamente pelo Movimento “Abraços às árvores” - SOS Praça Getúlio Vargas