09/08/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Meditação e o despertar para a realidade de todas as coisas

“Buscamos esta felicidade porque sentimos que ela existe, mas por estarmos envolvidos numa visão equivocada não sabemos como realizá-la”

Alexandre Saioro

A meditação no caminho budista tem um objetivo bem diferente do que hoje muitas pessoas buscam com sua prática. No Budismo, a prática da meditação não tem como objetivo ter um corpo e uma mente relaxados, nem atrair o que desejamos para nossa vida ou afastar o que não desejamos, ter uma vida próspera, relacionamentos satisfatórios, saúde, sermos bem sucedidos em nossos trabalhos ou mesmo ser uma “boa” pessoa etc.

No Budismo se medita para reconhecer a verdadeira natureza da mente que é a nossa natureza pura e perfeita. Esta afirmação pode parecer estranha, mas, na verdade o que isto significa pode ser intuído naquela felicidade completa que tanto buscamos em nossa vida. Buscamos esta felicidade porque sentimos que ela existe, mas por estarmos envolvidos numa visão equivocada não sabemos como realizá-la. Como diz Yongey Mingyur Rinpoche:

- “O desejo que muitos de nós sentimos de uma felicidade duradoura é a “pequena e constante voz” da mente natural, lembrando-nos do que somos realmente capazes de vivenciar. O Buda ilustrou esse desejo por meio do exemplo de uma mãe pássaro que deixa o ninho. Apesar de conhecer lugares lindos e ver coisas novas e interessantes, alguma coisa a puxa de volta ao ninho. Da mesma forma, apesar de a vida diária poder ser extremamente envolvente — apesar de ser incrível nos apaixonar temporariamente, receber elogios ou conseguir o emprego “perfeito” –, somos impelidos pelo desejo de um estado de felicidade completa e ininterrupta.”

No caminho budista a forma de realizar este estado é através de práticas meditativas, por isso podemos dizer que praticar meditação para qualquer outro objetivo que não seja este é um desperdício de tempo e energia. Qualquer coisa que conquistarmos com a meditação que não seja o reconhecimento da verdadeira natureza da mente, será algo temporário e, inevitavelmente, nos manterá aprisionados na mente comum, confusa e equivocada que nos conduz sempre a algum tipo de sofrimento.

Ao trilhar um caminho espiritual temos que estar muito atentos a estes desvios de motivação e meta que nos fazem buscar ganhos e conquistas não só materiais, mas também emocionais, mentais e, até mesmo, transcendentais ou sobrenaturais, pois nada disso irá trazer uma felicidade autêntica para nós mesmo e para os outros.

De que adianta ganhar alguma coisa quando estamos sonhando, logo o sonho acaba e tudo aquilo se desfaz em nossa ilusão sobre nós mesmos e nossa realidade? Envolvidos por esta ilusão, vamos passando de um sonho para outro com experiências infindável no sono da mente comum. Reconhecer a verdadeira mente é despertar do sono e da ilusão da nossa realidade.

- “O que estamos vivendo é como um longo sonho, um sonho mais longo do que os sonhos comuns do sono, mas se forem dez minutos ou uma vida inteira, a natureza ilusória dos sonhos é a mesma. Quando conhecemos e vivenciamos o longo sonho desta vida, então depois de morrer teremos outro longo sonho: o de nascer em outro estado de existência. Assim, um longo sonho irá se seguir a outro, enquanto a ilusão permanecer.

A qualidade extraordinária do Buda Darma é que ele nos dá os meios para reconhecer que esta vida é apenas como um sonho, que falta a ela existência verdadeira, e todos os nossos objetivos samsáricos centrados no ego são relativamente sem sentido e improdutivos — que eles não têm nenhuma essência e realidade verdadeira.

Iremos não apenas chegar a entender isso, mas o Darma também nos dá a chance de ver que há um modo de dispersar nossa ilusão e, através de meios hábeis, chegar à realização última da natureza buda, que é liberdade total em relação à ilusão, liberdade perfeita e paz transcendental.” Nyoshul Khen Rinpoche - Natural Great Perfection

Para entender melhor como se dá a formação deste sonho e a percepção equivocada de nossa natureza, deixo a seguir o trecho de um ensinamento do grande mestre da linhagem budista da Grande Perfeição, Thinley Norbu:

- “Desde um tempo sem início, não há hábitos na mente natural incondicionada. Mas ainda assim criamos hábitos ao dividir os fenômenos do espaço claro. Inerentemente, um espelho não tem qualquer poeira. Mas ainda assim ele atrai e junta a poeira, que obscurece sua claridade natural. Do mesmo modo, nossa Mente de Sabedoria pura torna-se obscurecida pelo ego quando nos tornamos apegados à exibição não-obstruída de seus fenômenos puros. Se pudermos reconhecer nossa mente natural e imaculada, não nos tornaremos obscurecidos pelo apego, mas se não reconhecermos nossa mente natural pura, então os fenômenos de nossos elementos sutis se juntam como poeira sobre o espelho claro de nossa mente.

Se limparmos as leves partículas de poeira imediatamente, podemos limpar facilmente um espelho. Se um hábito está em seu estágio semente, podemos fazê-lo desaparecer facilmente. Mas quando deixamos um espelho sem limpá-lo, juntam-se partículas sutis, atraindo partículas mais pesadas que se grudam nelas até que o espelho se torne completamente obscurecido e muito difícil de limpar. Se formos descuidados e negligenciarmos os hábitos de nossos elementos sutis não-conspícuos, eles se tornam a causa de nossos hábitos grosseiros, pesados e conspícuos.

Nossos hábitos conspícuos facilmente reconhecíveis são como o bolor que aparece sobre a comida estragada. Nossos hábitos sutis não-conspícuos são como o fogo sob cinzas quentes. Quando purificamos nossa mente, devemos remover todos os hábitos residuais, não importa o quão sutis eles sejam. Se deixarmos apenas uma partícula de poeira sobre o espelho de nossa mente, isto ainda é chamado de hábito residual. Mesmo se tivermos deixado apenas um único conceito, apenas um único fenômeno, seja bom ou ruim, ele ainda é um hábito residual que obscurece. As nuvens, sejam elas negras ou brancas, ainda são nuvens que obscurecem.”

(Norbu, Thinley. Magic dance: the display of the self-nature of the five

wisdom dakinis. Massachusetts: Shambhala, 1999. Pág. 39-41.)

Por: Alexandre Saioro