26/07/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A importância da atenção na era da informação

Não temos como escapar dos estímulos de nossa sociedade materialista e mercantilista que se alimenta de nossa atenção com suas estratégias cada vez mais agressivas. Mas podemos habilitar a nossa mente a conviver de forma livre e criativa neste mundo ao desenvolvermos uma prática para aprimorar nossa atenção e foco.

Alexandre Saioro

Podemos ouvir todos os melhores conselhos sobre como ter uma vida saudável, ler todos os artigos e livros sobre qualidade de vida, participar de todas as palestras motivacionais e receber a informação de toda a sabedoria produzida no mundo para sermos felizes, mas se não tivermos desenvolvido a capacidade de focar nossa atenção naquilo que vimos ser importante, nada disso fará alguma diferença em nossa vida.

Ouvimos, lemos e vivemos coisas importantes, mas esquecemos. Vemos mudanças importantes que devemos fazer em nossa vida, mas nem sempre conseguimos dar a atenção e o empenho necessário para as realizarmos e, consequentemente, somos levados pelos velhos hábitos.

É natural a busca de conhecimento e informação para vivermos bem com saúde e harmonia. Mas o que poucos se dão conta é que mais do que obter algum tipo de informação, precisamos obter habilidade na atenção, desenvolvendo foco e concentração para integrar estas informações. É a atenção que tem o poder de construção e transformação existencial. A atenção é que desconstrói o que precisa ser eliminado e constrói o que precisa ser estabelecido em nossa vida. Podemos dizer que nossa vida é fruto da nossa atenção. A questão é saber se esta atenção foi consciente ou inconsciente. Se você manteve a atenção naquilo que você gostaria de construir na sua vida ou não.

Normalmente é difícil para o ser humano manter a atenção focada e atualmente temos condições de vida que dificultam mais ainda esta tarefa. Os avanços tecnológicos nos colocaram num mar de informação que constantemente puxam nossa atenção de um lado para o outro. E se não temos consciência deste movimento magnético das informações, somos vítimas fáceis de ideias, valores e crenças que, sem percebermos, penetram, se perpetuam e se reproduzem em nossa vida, como parasitas que nos usam para sobreviver. Quando crianças somos mais suscetíveis a esta influência inconsciente, mas mesmo depois de adultos podemos continuar bastante indefesos diante das atuais estratégias sedutoras da ciência da informação.

Com uma tecnologia que nos oferece uma capacidade cada vez maior para obter informação e de se comunicar, precisamos mais do que nunca desenvolver nossa habilidade da atenção, pois nunca estivemos tão expostos a tantos estímulos mentais, visuais e auditivos ao mesmo tempo. A grande maioria das pessoas tem procurado estar cada vez mais “conectada” com seus computadores, tablets e smartfones. Mas até que ponto elas estão conseguindo digerir direito tudo que recebem? O que esta congestão de informação pode causar?

O psicólogo Daniel Goleman acredita que esse novo hábito das pessoas, principalmente os jovens, de estarem cada vez mais conectadas pode ser perigoso. Ouçamos o que ele diz:

“Hoje, todos nós, não apenas os jovens, nos sentimos invadidos por tecnologias digitais, por smartphones, e-mails. Todos esses recursos estão invadindo nosso espaço privado e degradando nossa habilidade de concentração”.

“Estamos sem tempo para refletir. Sem essa pausa não conseguimos digerir o que está acontecendo ao redor. Os circuitos cerebrais usados pela concentração são os mesmos que geram a ansiedade. Quando aumenta o fluxo de distrações, a ansiedade tende a aumentar na mesma proporção”.

Sem tempo e espaço para se perceber, perceber o outro e o ambiente corretamente, vivemos cegos emocionalmente e socialmente. E como cegos, podemos tender a se agarrar qualquer coisa mais imediata para nos sentirmos mais seguros. Mas nem sempre este imediato é o mais seguro ou real. Como disse Goleman o aumento de distrações nos traz mais ansiedade e neste estado podemos adotar condutas equivocadas e mesmo desastrosas para nossas vidas.

Grande parte de nossa saúde e nosso bem-estar pessoal e social depende da nossa capacidade de atenção. E o impacto da onda de tecnologias da informação (e da distração) já está preocupando muitos especialistas com relação em como esta situação influenciará as gerações futuras em suas relações sociais.

“Todo esse envolvimento digital cobra um custo no tempo dedicado a pessoas de verdade — o meio em que aprendemos a “ler” sinais não verbais. A nova safra de nativos do mundo digital pode ser muito hábil nos teclados, mas é completamente desajeitada quando se trata de interpretar comportamentos alheios frente a frente, em tempo real — principalmente de sentir o incômodo dos outros quando eles param para ler um texto no meio de uma conversa.”

“Uma relação empática exige atenção conjunta — foco mútuo. A necessidade de fazermos um esforço para termos esse tipo de momento humano nunca foi maior, levando em consideração o oceano de distrações que todos enfrentamos diariamente”. Daniel Goleman – Foco – Editora Objetiva.

O preço existencial que alguém paga por não ter uma atenção focada é alto. Ela perde a principal ferramenta para sua saúde e felicidade. Esta falta de foco é como alguém que entra no mar e ao não saber lidar com as ondas, se sente perdido e inseguro. Já aquele que sabe nadar e até surfar, vê naquela situação uma oportunidade para se divertir e curtir o mar e suas ondas. Como diz Dzogchen Ponlop Rinpoche:

“Sejam quais forem as experiências sensoriais que passemos, se passarmos por elas com atenção plena e consciência, não há limite para o quão longe podemos ir. O limite é da atenção e consciência. Mesmo se não gostarmos da experiência, isto em si se torna uma viagem. A não satisfação torna-se uma causa de sofrimento”.

Não temos como escapar dos estímulos de nossa sociedade materialista e mercantilista que se alimenta de nossa atenção com suas estratégias cada vez mais agressivas. Mas podemos habilitar a nossa mente a conviver de forma livre e criativa neste mundo ao desenvolvermos uma prática para aprimorar nossa atenção e foco. Podemos fazer isso ao cultivar momentos de treinamento da atenção diariamente, onde deixamos de lado nossos aparelhos, preocupações e desejos e mantemos nossa mente em observação de tudo que passa em seu corpo, ambiente e mente, sem se deixar ser levado pelos estímulos que surgirem, deixando eles passar, trazendo nossa mente sempre que se distrair de volta, de forma relaxada, para a espaçosa e plena atenção livre de fixações.

Apesar de parecer simples, é preciso de dedicação e de um método para se realizar este tipo de treinamento.

Se você ficou interessado por este assunto, todas as sextas-feiras acontece no Estúdio de Yoga Samsara, em Nova Friburgo, a Prática do Bem-Estar onde são ensinadas diversas práticas que ajudam a desenvolver nossa atenção e nossa capacidade de integrar hábitos saudáveis em nossa vida.

Por: Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).