30/06/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A conjuntura eleitoral e o vazio de alternativas políticas renovadoras

“Política renovada significa iniciativas inovadoras, em essência, palavras e atos, visão e experiência, que se traduzem por um redirecionamento de forças e afetos para o objetivo comum. Queremos uma organização política diferente, que abra à sociedade uma porta para se engajar na quebra do monopólio que os atuais partidos exercem sobre o Estado, demonstrando que outra forma de governabilidade e poder político é possível e viável.” (Manifesto da Rede Sustentabilidade)

Sandra Mara Ortegosa

Apesar da aparente euforia momentânea trazida pela Copa do Mundo no país, no campo da representatividade política vivemos um cenário de areia movediça, desencanto e perplexidade, no qual a bússola que mede as tendências políticas parece ter ficado inútil. Trata-se de um momento decisivo e, ao mesmo tempo, frustrante pela falta de alternativas que apontem algo de novo no horizonte.

A juventude, que ocupou as ruas e praças do país em junho de 2013, sente-se desnorteada, sem lideranças ou utopias que apontem novos rumos. Os movimentos sociais estão pulverizados, os partidos políticos e sindicatos desacreditados e as pessoas se sentem perdidas em relação às perspectivas que se apresentam nas próximas eleições.

Como se nada tivesse mudado em função das chamadas “Jornadas de Junho de 2013”, os partidos continuam praticando o velho jogo do vale-tudo e costurando alianças espúrias, com o intuito de garantir palanques e maior tempo de exposição nos programas de TV, indiferentes e insensíveis às vozes das ruas. A perspectiva é de que o número de votos brancos e nulos, principalmente entre os jovens, seja bastante elevado, colocando em evidência a crescente perda de credibilidade nas instituições políticas e nos mecanismos da democracia representativa, além da falta de alternativas reais de mudança.

Boa parte dos eleitores não se vê representada por Dilma, Aécio, Campos, Everaldo, Malta ou quem quer que seja. A ex-senadora do Acre, Marina Silva, que conseguiu angariar em torno de 20 milhões de votos nas eleições de 2010, poderia vir a representar essa alternativa, caso o TSE não tivesse negado o registro de seu partido, com a invalidação sem justificativa de mais de 100 mil assinaturas de apoio à criação da Rede Sustentabilidade. Para não ficar de fora da disputa, Marina Silva optou por se filiar ao PSB (Partido Socialista Brasileiro) na condição de vice do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, com a proposta de uma coligação programática entre os dois partidos. Marina, no entanto, parece ter superestimado a capacidade da Rede Sustentabilidade oxigenar o PSB com sua proposta de uma Nova Política, avessa às alianças eleitoreiras e pautada em processos decisórios horizontais e de baixo para cima. Na prática, o que está acontecendo parece ser exatamente o oposto: a Rede vem sendo engolida pela Velha Política e se distanciando, cada dia mais, dos seus propósitos originais.

A tentativa da direção nacional de manter essa coligação a qualquer custo tem gerado uma profunda crise interna, com a evasão de vários quadros partidários, colocando em risco a própria sobrevivência do partido já no seu nascedouro. De um lado, uma parcela relevante dos ativistas fundadores da Rede, os “sonháticos” (oriundos do Movimento Nova Política, que deu origem à Rede), defendem o rompimento com a coligação e a retomada da construção do partido; de outro, os pragmáticos, na sua maioria candidatos ou pessoas com cargos no partido, argumentam sobre a necessidade de se ocupar os espaços institucionais para defender o projeto da Rede de desenvolvimento sustentável e aprofundamento da democracia no país.

Não há dúvidas de que as alianças que o PSB vem costurando nos governos estaduais contradizem frontalmente essa perspectiva de uma “Nova Política” e de criação de uma “Terceira Via” defendidas pela Rede como alternativa à bipolarização entre o PT, que representa a continuidade do atual desenvolvimentismo de viés antiambiental, e o PSDB, com a retomada do projeto neoliberal privatizante. Com isso, as teses presentes no Manifesto e no Estatuto da Rede Sustentabilidade, acabaram tornando-se uma grife esvaziada de conteúdo autêntico e, cada vez mais, indefensável após as alianças espúrias que o PSB vem fazendo para ampliar o número de palanques e tempo de TV para o seu candidato.

O fato é que o PSB rompeu o acordo feito com a Rede e isolou Marina nos três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, apoiando à reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB), Pimenta da Veiga (PSDB), e Lindberg Farias (PT), respectivamente. A entrega aos tucanos, em dois dos colégios eleitorais com pesos decisivos no pleito desse ano, anuncia a possibilidade de, num eventual segundo turno, Campos e Aécio se aliarem, colocando Marina Silva numa situação ainda mais difícil do que a que já está desenhada.

A Rede Sustentabilidade encontra-se, nesse momento, frente ao desafio histórico de ruptura com o sistema político partidário tradicional e de defesa de seu projeto da Nova Política, com outra forma de governabilidade, rompendo com o clientelismo do PSB e mostrando à sociedade que esse sistema está falido. As velhas práticas políticas herdadas do colonialismo, do populismo, do racismo, do totalitarismo e outras formas de dominação, bem como a corrupção, os conchavos, o clientelismo, o nepotismo e outros desvios éticos que contaminaram nosso sistema político eleitoral precisam ser claramente rechaçados.

O que o momento está a indicar, portanto, é que está na hora de Marina Silva refletir seriamente se realmente vale a pena penhorar toda sua trajetória histórica de coerência e de postura ética para chancelar a candidatura de Eduardo Campos, como sua vice. Essa, talvez, seja a grande chance de Marina Silva assumir o papel da liderança que a sociedade está demandando, dialogando com os movimentos sociais na construção coletiva dessa nova política e colocando em prática as palavras enunciadas no manifesto de fundação da Rede: “o que virá dependerá do que formos capazes de criar e produzir, de inventar e distribuir, a partir deste encontro de sonhos e épocas, de gerações e destinos.”

Por: Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP.