14/05/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A cidade como mercadoria e a hegemonia do automóvel

As cidades são cada vez mais pensadas para os carros e não para as pessoas.

O mundo maravilhoso prometido pela chegada do automóvel transformou nossas cidades em locus privilegiado do caos, estresse, poluição, barulho, desperdício de tempo e de produtividade econômica e, muito pior, da perda crescente de vidas. Segundo as estatísticas, mais de 50 mil pessoas morrem por ano, apenas no Brasil, em função dos acidentes de trânsito.

Sandra Mara Ortegosa

Sob a égide do capitalismo, as cidades se fragmentaram e a segregação sócio-espacial se impôs de forma brutal na totalidade do território urbano: bairros ricos de um lado, com todos os equipamentos e serviços públicos disponíveis; e bairros pobres, favelas e loteamentos clandestinos de outro, situados em áreas de risco sujeitas a deslizamentos e inundações, apartadas dos equipamentos de educação, saúde, saneamento e transporte, e acossados por uma polícia que criminaliza a pobreza, promovendo verdadeiros genocídios, principalmente de jovens pobres e pretos, supostamente envolvidos no narcotráfico.

Como já havia previsto Karl Marx, nas sociedades capitalistas todas as coisas, materiais e imateriais, tendem a se transformar em mercadorias, inclusive as cidades. O processo de concentração da economia nas mãos de poucas e poderosas empresas, fazendo com que os recursos públicos sejam drenados para os investimentos na área econômica, em detrimento dos gastos sociais, é uma das características mais nefastas do capitalismo em sua atual fase monopolista e corporativista.

As empresas, principalmente as grandes construtoras, ao mesmo tempo em que adquirem maior poder de mercado, também aumentam sua influência nas decisões políticas segundo seus próprios interesses, direcionando a localização territorial dos investimentos públicos em infra-estrutura urbana (linhas e estações de ônibus e metrô, abertura de novas avenidas, construções de pontes e viadutos, instalações de água, luz, esgoto, telefonia, etc.) e equipamentos públicos (escolas, hospitais, postos de saúde, praças e parques), beneficiando o capital imobiliário através dos enormes impactos de valorização resultantes.

Segundo o geógrafo marxista David Harvey, autor do livro Cidades Rebeldes, o interesse que o capital tem na construção da cidade é semelhante à lógica de uma empresa que visa o lucro. Nos últimos 30 anos, temos presenciado nos grandes centros urbanos mundiais a realização de megaprojetos, circunscritos dentro dos propósitos do que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”. É o que estamos presenciando nesse momento no Brasil, com os preparativos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O capital, com ajuda do Estado, utiliza esses megaeventos como instrumentos de ampliação dos lucros, provocando remoções forçadas das populações de baixa renda e desviando a verba pública, que deveria ser investida prioritariamente em gastos sociais, para apoiar essas empreitadas. No mundo inteiro, o processo de gentrificação, marcado pela substituição da população de baixa renda, fixada em determinadas áreas mais cobiçadas pelos especuladores, por classes sociais de renda mais elevada, tem provocado protestos crescentes contra o emprego do dinheiro dos impostos para esses fins, em detrimento da construção de escolas e hospitais.

Essa estratégia de apropriação da cidade como mercadoria pelo capital, instrumentalizada pelo financiamento privado das campanhas políticas, objetivam a reprodução ampliada do lucro e o desempoderamento da população atingida, mediante mecanismos de controle sobre a representação política. Os movimentos sociais no Brasil já contabilizam em torno de 100 mil pessoas removidas de suas residências, apenas no Rio de Janeiro, em função das obras da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Nas últimas décadas, com o avanço do modelo econômico neoliberal, o poder público vem transferindo para a iniciativa privada a responsabilidade pelo atendimento de diversas demandas sociais básicas, nas áreas de saúde, educação, saneamento e transporte, levando à gradativa deterioração dos serviços públicos e, em especial, ao colapso do sistema de transportes. Como resultado dos incentivos governamentais à indústria automotiva, o sistema viário da maior parte das nossas cidades encontra-se hoje abarrotado de automóveis, transformando a vida urbana num verdadeiro inferno dantesco, com infindáveis e estressantes congestionamentos a qualquer hora do dia, responsáveis por deseconomias e pela degradação generalizada da paisagem urbana e do meio ambiente.

Uma das razões desse retrato trágico da nossa “civilização do automóvel” relaciona-se às políticas públicas que, desde sempre, favoreceram a indústria automotiva, através da concessão de incentivos fiscais, subsídios e isenções. O automóvel foi eleito pela sociedade de consumo como um dos principais símbolos de status social com a promessa de um estilo de vida que proporcionaria maior liberdade de ir e vir, e mais conforto e rapidez de mobilidade. Paradoxalmente, porém, o automóvel metamorfoseou-se numa espécie de cárcere privado, fazendo-nos desperdiçar um tempo precioso, que poderíamos estar usufruindo no convívio com a família, com os amigos ou em atividades culturais. Os engarrafamentos são gigantescos, a irritação e o estresse são crescentes, mas ninguém quer abrir mão do automóvel.

Além da lentidão na mobilidade, encontrar vagas para estacionar tornou-se um drama cada vez mais complexo. O mundo maravilhoso prometido pela chegada do automóvel transformou nossas cidades em locus privilegiado do caos, estresse, poluição, barulho, desperdício de tempo e de produtividade econômica e, muito pior, da perda crescente de vidas. Segundo as estatísticas, mais de 50 mil pessoas morrem por ano, apenas no Brasil, em função dos acidentes de trânsito.

Se até alguns anos atrás, essa situação espelhava apenas a realidade das metrópoles ou das grandes cidades, atualmente até as de pequeno e médio porte, como é o caso de Nova Friburgo, estão enfrentando as consequências do caos diário provocado pelo tsunami de automóveis que invadiram as ruas. Os protestos sociais, que marcaram o mês de junho no Brasil, e que tiveram como estopim o aumento do valor das passagens de ônibus e metrô em São Paulo, não deixam de ser também o extravasamento coletivo de um grito de fúria contra a precarização crescente da qualidade de vida das nossas cidades.

A busca de alternativas a essa situação passa, portanto, pela superação da cultura que valoriza e privilegia o uso do automóvel, e pela promoção de políticas públicas que invistam pesado no transporte coletivo de massa e em projetos de mobilidade sustentável, onde a preocupação com a qualidade de vida de seus habitantes se sobreponha às diversas formas de apropriação privada da cidade como mercadoria.

Somente através do exercício pleno da cidadania a visão das cidades como locais de negócio poderá ceder lugar a experiências urbanas compartilhadas e culturalmente enriquecedoras, possibilitando a reinvenção de cidades mais humanas, onde pedestres e ciclistas voltem a ser mais importantes que os automóveis.

Por: Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP Phd em Antropologia pela PUC-SP.