16/04/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Melhor forma de combater o uso do álcool na adolescência é o diálogo com os pais.

Bem aceito por boa parte da sociedade, legalizado e promovido pela publicidade, o consumo de álcool deve ser tema de conversa entre pais e filhos, defendem especialistas. Eles acreditam que é a melhor forma de combater o uso durante a adolescência. O tempo certo para a conversa, no entanto, é variável e depende de cada família.

“É bom que não seja depois dos 12 anos, que é a idade em que muitos têm o primeiro contato com o álcool, mas é claro que a necessidade de aconselhar a criança depende do grau de exposição à bebida. Tudo depende do contexto. Se a criança começa a ser exposta ao álcool mais cedo, vendo as pessoas e os próprios pais beberem, isso tem que ser conversado”, diz a professora do departamento de medicina preventiva da Universidade Federal de São Paulo Zila Sanchez, integrante do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas.

No 6º Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada, nas 27 capitais brasileiras, com dados de 2010, os pesquisadores do centro de pesquisa constataram que a idade média do primeiro contato com as bebidas alcoólicas é 13 anos.

Foram ouvidos 50.890 estudantes, e 15,4% dos que tinham entre 10 e 12 anos declaram que tinham consumido álcool no ano da pesquisa. A proporção sobe para 43,6% entre 13 e 15 anos, e para 65,3% entre 16 e 18 anos.

De todo o universo pesquisado, 60,5% dos estudantes declararam ter consumido álcool. A taxa foi maior entre os alunos das escolas privadas (65%) do que entre os das públicas (59,3%). Mais que um quinto dos estudantes (21,1%) tinha consumido álcool no mês da pesquisa.

Outro estudo, divulgado pela companhia cervejeira Ambev mostra que 33% dos pais brasileiros não conversam com os filhos sobre o consumo de álcool, apesar de 98% dizerem que consideram importante. Entre os 11 países pesquisados, o Brasil só fica na frente da Ucrânia (34%) e da China (53%). Na Alemanha, apenas 15% dos pais disseram não ter falado.

Quase metade dos pais brasileiros, que disseram não ter tocado no assunto, consideram que o filho é muito novo para isso (48%), apesar de a idade média que os entrevistados consideraram a ideal para a conversa ser 9 anos. Outros 22% disseram não saber como tocar no assunto, 15% afirmaram confiar nos filhos e 9% alegaram que acham estranho ou tem vergonha de conversar sobre isso.

“Geralmente eles mesmos consomem e até de forma exagerada. É difícil falar de uma coisa que você faz, às vezes, na frente dos filhos. Os pais que não consomem de maneira abusiva na frente dos filhos, os protegem do consumo. É uma questão de avaliar o quanto você está expondo seu filho. O ideal é que não consuma, mas, se consumir, é importante deixar claro que é bebida de adulto”, diz Zila.

A professora chama a atenção para o fato de a porcentagem de jovens que consomem bebida alcoólica ter caído entre as duas pesquisas do centro de informações sobre drogas. Em 2004, eram 41,2% os estudantes de 10 a 12 anos que tinham consumido álcool, percentual que caiu para 27,9%. Para Zila, a queda é resultado de políticas públicas e conscientização, mas é preciso maior convencimento sobre o problema, uma vez que o consumo excessivo tem crescido.

“A queda é uma questão de políticas públicas e maior controle, mas o aumento do consumo em grande quantidade tem mais a ver com uma cultura que tolera a embriaguez, e que a favorece. Ela é estimulada de várias formas, como em músicas e festas”, diz a pesquisadora. Ela recomenda que os pais sejam presentes na vida dos filhos para acompanhar essa questão. “A melhor forma que os pais têm de conhecer os hábitos e os ambientes que o filho frequenta é levando-o e buscando-o a festas e casas de amigos. Assim ele sabe se o local vai ter álcool, quem está lá, e em que estado o adolescente volta para casa”.

Convivência e diálogo entre pais e filhos é de suma importância

Com cada vez menos tempo e disponibilidade para educar os filhos, muitos pais acham que pressionar a escola é a melhor solução. Todavia, as condições ideais de convivência, proximidade e intimidade para a educação das virtudes, dos vícios e do caráter dos jovens estão presentes, principalmente, na rotina familiar.

A base da verdadeira educação é o exemplo dos pais e a sua disponibilidade e capacidade de diálogo, sem o qual não há escola que eduque de fato.

Disposição para o diálogo. Esse “caminho” é fundamental na relação entre pais e filhos. Tal aspecto vale, principalmente, quando o assunto é a iniciação sexual dos filhos. Desde a infância, se eles encontrarem um ambiente propício para conversas e trocas de experiências, será mais fácil não haver embaraços na aproximação com os pais na fase da adolescência.

A educadora e mediadora de conflitos Suely Buriasco defende o diálogo transparente. “Apenas através do diálogo franco e claro, em que haja respeito e consideração pela ideia do outro, é possível construir a cumplicidade necessária para que os filhos compreendam as palavras dos pais como sendo orientação segura”.

Os filhos acostumados a conversar com os pais desde cedo tendem a pedir a opinião deles, sentindo-se ouvidos e orientados. Conforme Suely, essa prática tende a atuar diretamente no relacionamento dos filhos na vida adulta: “Tornam-se adultos seguros e aptos a bons relacionamentos”.

No entanto, quando o processo do entendimento entre pais e filhos não se inicia na infância, na adolescência tende a ser mais difícil. Para Suely, a cumplicidade poderia ser construída por meio do respeito e conquista da confiança. “Com vontade e dedicação é possível resgatar o diálogo, aproximando-se emocionalmente dos filhos”.

Mesmo havendo diálogo, o surgimento de conflito na família torna-se natural. Sua existência é inerente à convivência humana, já que representa as ideias antagônicas de cada indivíduo. Mas, conforme Suely, o desafio está em saber gerenciar as divergências. “Se não houver disposição para o diálogo, uma família pode envolver-se em um grande caos. Por isso, é fundamental respeito e consideração pela forma de cada um pensar e, então, buscar junto um acordo no qual todos se sintam atendidos”.

Matéria com informações de matéria publicada em BBEL. Por Priscila Caldeira

Por: Agencia Brasil