01/04/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A opressão dos bancos

Por que são oferecidas tantas vantagens para essas instituições?

Por que são oferecidas tantas vantagens para essas instituições que não produzem nada, que não operam com recursos próprios e que são praticamente obrigatórias em nossa sociedade?

* Claudio Verbicário

No dia 12 de janeiro de 2011 a região serrana do Estado do Rio de Janeiro foi assolada pela maior catástrofe natural até então ocorrida em território nacional.

Em poucas horas as chuvas ceifaram a vida de pelo menos 905 pessoas, deixando aproximadamente 30 mil desalojados e desabrigados (embora, sabemos de fato, que esse número foi bem mais elevado). Mas logo no período seguinte à devastação, diversas medidas foram tomadas por parte do governo federal, estadual e municipal de modo a atenuar a situação dramática a que se encontrava a região. No dia 17 foi decretado o estado de calamidade pública em Nova Friburgo, contado a partir do dia 12 daquele mês, e que possibilitou diversos benefícios à população como a prorrogação do pagamento de tributos federais por seis meses e a antecipação do FGTS e dos benefícios do INSS.

Contudo, todo esse sofrimento pareceu distante e irrisório para os dirigentes dos bancos que nada fizeram para ajudar à população serrana naquele momento crítico. Será que realmente não entenderam a gravidade da situação socioeconômica da região ou preferiram, figurativamente falando, ‘lucrar com a venda de lenços enquanto a população chorava’? Pois todos os bancos, inclusive os públicos, decidiram cobrar juros em cima das contas que venceram no período em que as agências estavam fechadas. Isso é um absurdo!

Na época, a Firjan fez uma pesquisa com 129 empresas friburguenses, publicada em diversos veículos de comunicação da cidade, apontando que 79,8% delas sofreram algum tipo de impacto, 83,2% ficaram sem energia elétrica, as linhas telefônicas caíram em 73,4% dos casos, 67,6% das empresas trabalharam com quadro funcional reduzido, 38,2% enfrentaram alagamentos no entorno da empresa e 21,4% alagamentos dentro da própria empresa, dessas, foi constatada uma perda média de 70,3% do estoque de matéria prima e 62,2% dos produtos já acabados. Esse quadro fez com que 65,3% das empresas tivessem problemas com a capacidade de produção, 62,4% tiveram dificuldades no escoamento dos bens e 59,5% não receberam matéria prima adequadamente. Com essas informações já seria possível vislumbrar os danos provocados pela catástrofe, mas se o motivo para o descaso dos bancos foi a falta de interesse ou reconhecimento quanto a capacidade econômica da região, é então cabível salientar que até o período da tragédia o valor adicionado pelo setor agropecuário nestas cidades - Areal, Bom Jardim, Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto - era de R$ 268 milhões, com a indústria gerando R$ 2,1 bilhões e o setor de serviços R$ 7 bilhões.

Ora, por que esses mesmos bancos que atendem tão prontamente aos interesses de grandes conglomerados são tão displicentes quanto às necessidades das micro e pequenas empresas? Tão insensíveis perante o drama do indivíduo? E nesta reflexão também estão inclusos os bancos públicos que se comportam com a mesma lógica de funcionamento dos privados e visam à obtenção de lucro em detrimento a sua real finalidade, que é a de promover um atendimento de qualidade à população ao tempo em que oferecem crédito a setores e clientes que não conseguem acesso no mercado privado. Novamente, não foi isso o que vimos durante a tragédia de 12 de janeiro de 2011 - alguns clientes pareceram ser mais importantes do que outros. Por quê?

Por que até a alguns anos atrás, não havia nem banheiros públicos na maioria das agências? Por que os carros fortes têm o direito de estacionar em fila dupla, atrapalhando o trânsito, a qualquer horário do dia? Por que, ao realizarmos uma transação bancária, recebemos um comprovante, um papelzinho, que praticamente se dissolve com a luz solar e aos bancos é garantida toda a segurança operacional? Por que são oferecidas tantas vantagens para essas instituições que não produzem nada, que não operam com recursos próprios e que são praticamente obrigatórias em nossa sociedade? Pois, afinal, é praticamente impossível sobreviver ao atual sistema capitalista sem vincular-se a algum desses bancos. E é através da dívida e dos juros que eles prendem seus clientes. Através de taxas exorbitantes como a do cheque especial que atinge, em média, patamares de 150,46% ao ano, tendo como taxa mínima (!) a da Caixa, com 65% ao ano (fonte: Procon - 07/2013). Isso parece piada! Quem consegue quitar isso?

Os lucros exorbitantes dos quatro maiores bancos, nos últimos anos, independem dos mandatários vigentes do executivo e da real situação de crescimento da nossa economia. Os próprios sindicatos dos bancários apontaram que no 1º semestre desse ano os dois maiores privados e os dois maiores públicos geraram a cifra aproximada de R$ 26 bilhões. Com tão notável quantia, podemos facilmente questionar: existe uma real necessidade de se cobrar os juros de 9,5% ao mês pelo cheque especial das micro e pequenas empresas? Existe tanta inadimplência nesse país para que isso seja aplicável? E indo além, indago - se há inadimplência, ela é causada pelos juros altos ou são os juros altos que causam a inadimplência? Seja como for, lamento pela nossa economia que, pelo visto, já se encontra tal como as ribanceiras da serra fluminense - a ponto de desmoronar.

Não deveríamos ser um país dos banqueiros, mas aparentemente é isso! Como já foi dito por um dos mais proeminentes banqueiros da história mundial, Mayer Amschel Rothschild: “Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis”. Essa lógica predatória e irresponsável já assola todos os países do mundo que se deixaram ficar a mercê dessas oligarquias financistas. E hoje, no Brasil, todos os veículos de comunicação e partidos políticos sofrem uma influência contumaz e irremissível desses grupos. A quem devemos recorrer? Enquanto essa e outras perguntas aguardam resposta, a população da região serrana ainda aguarda o ressarcimento do dinheiro que lhes foi indevidamente tomado.

Claudio Verbicário é empresário é ex presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo (ACIANF)

Por: Claudio Verbicário