22/03/2014 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Os fantasmas da ditadura militar ainda nos rondam

Causa-me estranheza, perplexidade e horror presenciar nas redes sociais da internet manifestações de enaltecimento do Golpe de 64 e pedidos de volta da ditadura militar, inclusive com proposta de reedição da Marcha da Família. A quantidade de publicações e comentários de extrema-direita vem aumentando na mesma proporção e velocidade em que cresce a onda de violência que tomou conta dos protestos sociais de junho de 2013, em função da atuação truculenta da PM, dos Black Blocs e de agentes infiltrados, provocando o esvaziamento daquilo que poderia ter sido o desabrochar da Primavera Brasileira.

Muitos dos jovens que hoje clamam pela volta da ditadura desconhecem por completo o que se passou em nosso país nessa quadra nefasta da nossa história quando, há meio século, instalou-se no Brasil um dos mais longos e períodos de autoritarismo e repressão, que duraram 21 anos, legando-nos profundas desigualdades sociais, serviços públicos sucateados, degradação ambiental, violência e corrupção endêmicas, cidades desestruturadas e muitas outras mazelas ainda não superadas. Assim como Jean Paul Sartre, “odeio as vítimas que respeitam seus carrascos”. A falta de consciência crítica das massas e, particularmente, a total desinformação (ou visão distorcida ideologicamente) do significado desses anos de chumbo, espelham o brutal sucateamento do nosso sistema público de ensino e constitui, atualmente, um dos maiores entraves ao avanço da democracia.

Ainda era criança quando essa tragédia se abateu sobre o país, mas vivenciei, nos tempos de universidade, o período mais duro desse regime, quando professores e colegas desapareciam misteriosamente e não sabíamos em quem podíamos confiar, já que existiam agentes policiais infiltrados nas salas de aula com o objetivo de monitorar de perto os professores e alunos. Os meios de comunicação foram amordaçados e, até mesmo os jornais que apoiaram o golpe, como é o caso do Estadão, tinham que suprimir trechos de suas matérias, substituindo-as por receitas culinárias ou poesias. A elitização do ensino superior, excluindo as camadas populares, foi uma espécie de recompensa dos militares aos setores de classe média que apoiaram o golpe.

Tais fatos estão claramente ligados à reação em relação às reformas estruturais de base (reforma agrária, educacional, eleitoral, fiscal etc), que Jango vinha tentando realizar desde que assumiu a presidência em 1961, com o intuito de implantar um capitalismo autônomo e progressista no país. Se seu governo não tivesse sido derrubado no dia 1º de abril de 1964, com o apoio dos Estados Unidos, dos empresários, dos banqueiros, dos latifundiários e da classe média conservadora, com certeza nossa realidade hoje seria outra, radicalmente melhor. O sufocamento da liberdade de expressão pela censura férrea e perseguições, resultou no bloqueio da rica produção cultural que vinha sendo realizada nas áreas de cinema, teatro, música, arquitetura, literatura, quando a ânsia de superação do atraso imposto pelo passado colonial e de construção de uma modernidade original estavam brotando de forma surpreendente em todos os campos da cultura e da arte, desde a construção de Brasília, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro de Arena, os Centros Populares de Cultura da UNE, etc. Era um momento de mudanças renovadoras, de esperança e de explosão criativa.

Uma de minhas melhores recordações desse período foi ter participado das gigantescas assembléias e passeatas estudantis desencadeadas pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. Vlado, como era carinhosamente chamado pelos amigos e alunos, era professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, jornalista da TV Cultura e ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Nessa época de caça às bruxas e Guerra Fria, o grande inimigo a ser combatido era o fantasma do comunismo. Muitos intelectuais, artistas e cientistas, altamente qualificados, tiveram que se buscar exílio em outros países, após o AI-5 em 1968, como foi o caso de Darcy Ribeiro, Milton Santos, Florestan Fernandes, Celso Furtado, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fernando Henrique Cardoso, Ferreira Goulart, Oduvaldo Viana Filho, etc.

Uma das propostas abortadas pelo Golpe de 64 foi a Reforma da Educação, de autoria do antropólogo Darcy Ribeiro, que tinha como objetivo oferecer ensino público e gratuito, em período integral, na rede estadual. O AI-5 não somente liquidou com a hegemonia cultural das correntes progressistas e de esquerda, como azeitou a máquina de propaganda oficial para criar e alimentar o mito do “Brasil grande”, fazendo apologia do “milagre econômico” e do consumismo. Um boom econômico fugaz que sucumbiu, em menos de quatro anos, com a crise do petróleo.

As Forças Armadas precisam reconhecer os crimes praticados e pedir perdão ao povo brasileiro por terem impedido que o país tivesse alcançado um destino grandioso. O PT errou ao não investir, desde 2003, na formação política de quadros de esquerda nas Forças Armadas antes de ter criado a Comissão da Verdade. Em função desse erro, praticamente só há militares de direita nos quartéis e a Escola Superior de Guerra mantém um currículo dos mais retrógrados e conservadores.

Enquanto não houver uma correlação de forças entre direita e esquerda nos quartéis, sempre vai restar uma ponta de medo de um possível golpe de extrema-direita. Nesse mês de março, em que as mulheres são homenageadas, não podemos esquecer que crimes hediondos foram cometidos por agentes da ditadura contra mulheres indefesas de diferentes partes do Brasil, algumas delas grávidas que abortaram depois de seguidas sessões de tortura, outras ainda amamentando e brutalmente separadas de seus bebês recém-nascidos, presas, torturadas, estupradas e muitas assassinadas, lutando pela democracia.

Enquanto a sociedade brasileira não passar a limpo essa triste e obscura página de nossa história, os fantasmas que ainda restam continuarão nos ameaçando e dificultando o florescimento de uma democracia plena em nosso país.

Por: Seculo