23/07/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Educação Ambiental: “e eu com isso?”

De pouco adianta conhecermos sobre reciclagem e mudanças climáticas se não reaprendermos sobre o respeito nas relações humanas e sobre as consequências de nossas ações.

Jeany Amorim

Em pesquisa realizada sobre “Meio Ambiente” com 300 adolescentes entre 12 e 14 anos, foi possível perceber que mais de 95% dos meninos reconhecem como Meio Ambiente a fauna e a flora, a natureza, algo a ser preservado, mas do qual o ser humano não faz parte, apenas interage – mal, diga-se de passagem. Talvez esteja aí a explicação para o descaso e o distanciamento do homem de suas raízes e do princípio de sua existência: a natureza. Mas ao mesmo tempo em que esses adolescentes não se reconhecem como parte deste meio ambiente, se reconhecem e reconhecem o homem – seu consumismo excessivo, sua ganância e ignorância – como o maior inimigo da natureza, e se sentem responsáveis por mudanças de atitude. O que falta, então, para que de fato haja consciência e ações concretas pela preservação e saúde de nosso planeta, se há o desejo por um novo tempo?

No Brasil, existe uma lei específica que trata da educação ambiental. A Lei número 9.795 de 27 de abril de 1999, dispõe sobre a educação ambiental, instituindo a política nacional de educação ambiental:

Art. 1o Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

Art. 2o A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal. (...)

Mas a experiência nos mostra que não são as leis que promovem as atitudes – na maioria das vezes, a lei apenas coibe – e no caso da educação ambiental é preciso “tornar consciente” não apenas os alunos, mas também os educadores que conduzirão essa busca por novos caminhos e possibilidades de vida. Nisto, deverão estar envolvidos escola, família e comunidade, na construção do sentimento de pertencimento e responsabilidade.

Muitas escolas buscam parcerias com ONG’s e Institutos que já nasceram com o objetivo de educar para a preservação da vida e a sustentabilidade, desenvolvendo projetos nas escolas ou capacitando o corpo docente para ações mais diretivas, mas a maioria das Instituições de Ensino ainda continua tratando a relação do homem com o meio ambiente apenas em festas temáticas, como no Dia Mundial da Água, Dia do Meio Ambiente ou nas Feiras de Ciências; professores de Geografia, Biologia e Ciências se esforçam para, em meio aos conteúdos programáticos, semearem a ideia de responsabilidade ambiental, como se esse fosse um compromisso de disciplinas específicas, e não de todo educador... Enquanto as escolas não assumirem o compromisso na formação deste novo homem, este novo homem não nascerá!

Isabel Cristina de Moura Carvalho, psicóloga e Dra. em Educação, reconhece este compromisso como a formação do “sujeito ecológico” - nome usado para definir o que seria o modelo ideal de um ser humano que tem e dissemina valores éticos, atitudes e comportamentos ecologicamente orientados.

“ A educação ambiental ao remeter-nos à questão da manutenção da VIDA, pode estar referindo-se a ela em toda a sua diversidade e dimensões – biológica, química, física, cultural, espiritual, organizacional, dentre outras, ou a aspectos específicos delas. Pode instigar pensamentos sobre os humanos ou sobre todas as formas de vida e de suporte a ela, ou ainda pode referir-se à sua preservação, conservação ou recuperação ou ao seu aprimoramento e melhoria. Isto amplia a possibilidade de compreensões diversificadas sobre o papel e a forma de se fazer educação ambiental.” (SORRENTINO, 2005)

Katia Mendonça e Antônio Marconi Nicolau, proprietários da Insanidade Jeans, de Nova Friburgo, têm feito oficinas de customização de roupas e acessórios em escolas da cidade – rede privada e pública. A garotada foi convidada a levar peças de roupas que já não usavam, fora de moda. E durante a oficina, foram levados a refletir sobre a possibilidade de transformar, consumir menos, reaproveitar – os 3 Rs da sustentabilidade: “Reduzir, Reutilizar e Reciclar”. O resultado não poderia ter sido melhor; além de peças exclusivas e a satisfação de criar, a semente do “sujeito ecológico” foi lançada:

“- Cada um tem que fazer a sua parte; a escola vai explicar e trabalhar com o presente e o futuro. O passado contado com números e estatísticas ajuda a essa geração a não errar por ignorância. Mas, mais do que isso, precisamos sensibilizar essa criançada - e isso é muito urgente! - e acima de tudo dar o exemplo. Isso, na minha opinião, é papel da escola e dos pais. Como empresa é claro que me sinto responsável – eu não quero só vender! - e se as crianças e o meu consumidor em geral entendem e sabem qual é a filosofia da minha empresa ela passa a ter mais credibilidade no que eu fabrico também. Vivemos esse boom da China, mas sabemos que alguém paga essa conta: trabalho escravo sem a menor cerimônia e sem a menor preocupação com o meio ambiente. Se as crianças entendem que minha empresa visa um comércio digno, no maior significado que essa palavra pode ter, as coisas se modificam. Esse é o futuro.”, conclui Katia.

Inserir nas práticas pedagógicas a formação deste novo homem vai além de atividades simbólicas somo plantar uma árvore ou adotar um canteiro. A Educação Ambiental é uma das ferramentas de orientação para a tomada de consciência dos indivíduos frente aos problemas ambientais, e a palavra de ordem é diminuir os impactos negativos do ser humano sobre o mundo, com mudanças de atitudes pessoais e coletivas. E pra isso, é preciso pensar nas necessidades cotidianas da comunidade escolar – pra iniciar! – nos impactos diretos e indiretos sobre o meio ambiente, na relação entre as pessoas que fazem parte desta comunidade, porque na base da relação de exploração da natureza pelo homem, está também o desrespeito por seu semelhante, a ausência de compaixão e a exploração do homem pelo homem... se fosse diferente, pensaríamos nas próximas gerações, e “as grandes potências industriais” não se desenvolveriam às custas da vida do homem e do planeta.

Portanto, de pouco adianta conhecermos sobre reciclagem e mudanças climáticas se não reaprendermos sobre o respeito nas relações humanas e sobre as consequências de nossas ações. Especialistas são unânimes em dizer que a educação ambiental deve ter objetivos de longo prazo. Este é um trabalho para a vida toda, e não de iniciativas pontuais.

Jeany Amorim é professora de artes e coordenadora no Colégio Anchieta

Por: ForumSec21