04/06/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

A gravidade da crise planetária

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” (Eduardo Galeano)

Por: Sandra Mara Ortegosa

Como resultado do avanço da globalização capitalista e do neoliberalismo, nos últimos trinta anos o mundo ingressou numa situação de crescente desemprego, exclusão social, violência e degradação ambiental, em escala e velocidade sem precedentes históricos, colocando em pauta a necessidade de uma redefinição urgente do atual modelo de crescimento econômico baseado na lógica do produtivismo/consumismo.

Tem se tornado cada vez mais evidente e irrefutável que o capitalismo é um sistema autofágico que não consegue se reproduzir sem provocar a degradação dos recursos naturais, do clima, do patrimônio cultural, da segurança alimentar etc. Além disso, esse modelo de “desenvolvimento” é responsável por uma crescente desagregação social, em decorrência dos mecanismos de concentração de renda, exclusão social e disseminação da violência. Em conseqüência, ingressamos no século XXI com nosso pequeno planeta azul superpovoado, devastado e imerso numa das mais agudas crises civilizacionais, onde a própria sobrevivência da espécie humana encontra-se ameaçada. Estamos atravessando um momento crucial de definição de um novo modelo de civilização que terá como maiores desafios a busca urgente de soluções que minimizem os efeitos deletérios dos desequilíbrios climáticos e elimine a enorme desigualdade social, onde 20% da população mundial consomem 80% da riqueza total. O equilíbrio ecológico do planeta está, portanto, diretamente relacionado à questão da justiça social. Sem isso, a humanidade estará inevitavelmente caminhando para uma rota de colisão onde ninguém sai ganhando.

Será a crise irreversível?

Na visão do sociólogo norte-americano Immanuel Wallerestein, estamos vivenciando uma crise irreversível e de desdobramentos imprevisíveis, uma crise muito mais séria e profunda que uma mera turbulência do sistema financeiro. Segundo Wallerestein, o “sistema-mundo” que se configurou a partir do século 16 na Europa e se tornou hegemônico no planeta atingiu “o limite de suas possibilidades”, sendo incapaz de sobreviver à crise atual. O que virá a seguir? Ele não concorda com a visão de que o colapso do capitalismo dará necessariamente lugar a uma ordem fraterna e socialista. Podemos, inclusive, desembocar num sistema ainda mais desumano, como indicam as crescentes manifestações de correntes ideológicas autoritárias, xenófobas, racistas, homofóbicas e machistas no mundo inteiro e, em particular, no Brasil, onde enfrentamos um enorme retrocesso na área de Direitos Humanos, com a eleição do deputado pastor Marcos Feliciano, declaradamente homofóbico e racista, para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Possibilidade de mudança

Frente a essa situação, cada vez mais insustentável, quais seriam as alternativas possíveis? De acordo com o teólogo Leonardo Boff, “há três propostas criativas: a da economia solidária que não mais se guia pelo objetivo capitalista da maximização do lucro e de sua apropriação individual. A segunda é a do escambo com moedas regionais. A terceira é a da biocivilização e da Terra da Boa Esperança, do economista polonês que dirige um centro de pesquisa sobre o Brasil em Paris: Ignacy Sachs. Ela confere centralidade à vida e à natureza, tendo o Brasil como o lugar de sua antecipação. As três são possíveis, mas não acumularam ainda força suficiente para ganhar a hegemonia.”

Não basta, portanto, denunciarmos a irracionalidade do sistema capitalista e o caos a que ele nos conduzido. Precisamos colocar em prática uma transição anticapitalista, criando alternativas viáveis no campo das relações sociais, das tecnologias, da vida quotidiana, da relação com a natureza e nos arranjos políticos e institucionais.

Nesses termos, a proposta do ecossocialismo pode vir a ser uma das respostas possível. Segundo Michel Lowy, “a alternativa ecossocialista significa que os grandes meios de produção e de crédito são expropriados e colocados a serviço da população. As decisões sobre a produção e o consumo não serão mais tomadas por banqueiros, managers de multinacionais, donos de poços de petróleo e gerentes de supermercados, mas pela própria população, depois de um debate democrático, em função de dois critérios fundamentais: a produção de valores de uso para satisfazer as necessidades sociais e a preservação do meio ambiente.” As necessidades sociais e o equilíbrio ecológico são, portanto, os critérios básicos do ecossocialismo, que se contrapõem aos critérios estritamente mercantis hegemônicos nas sociedades capitalistas, numa síntese dialética, e é, ao mesmo tempo, uma crítica à “ecologia de mercado”, que não se confronta com o sistema capitalista, e ao “produtivismo socialista”, que ignora a questão dos limites naturais. (Michel Lowy)

O principal fator destrutivo é a noção de crescimenti ilimitado num planeta que é limitado.

O fato é que o ideal do crescimento ilimitado num planeta limitado, que é a base do capitalismo, tornou-se indefensável e o nosso principal desafio nesse momento é o de encerrarmos, o mais rápido possível, a era do petróleo e das desigualdades sociais, inaugurando um novo paradigma na relação homem-natureza e dos homens entre si, com base em valores como os da solidariedade, da cooperação e da compaixão, em substituição ao individualismo, competição e indiferença em relação ao próximo. Nessa era das incertezas, não é possível antevermos se o planeta sobreviverá ao ímpeto destrutivo de nossa civilização e se seremos capazes de superar a crise atual em tempo hábil, inaugurando uma nova era onde os seres humanos finalmente se reconheçam como cidadãos planetários. No entanto, nossa única alternativa é tentarmos torná-la possível. Como afirma Wallerestein “o sentido do século depende do que fizermos agora”.

Sandra Mara Ortegosa é Arquiteta e socióloga pela USP, Phd em Antropologia

pela PUC-SP - sandraortegosa@yahoo.com.br

Por: Sandra Ortegosa