04/06/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Encontrando liberdade no prazer e na dor

"Desde pequenos somos ensinados a não encarar a dor. E isso vai seguindo durante a vida até o momento de nossa morte onde, creio eu, não teremos mais como fugir da realidade."

Por: Alexandre Saioro

A criança corria na calçada e num descuido caiu, machucou a perna e começou a chorar de dor. A mãe ao socorrê-la, imediatamente, começou a falar: Já passou, já passou...e eu pensava: não mãe, não passou.

A criança, meio que sem opção diante da insistência da mãe em dizer que “já passou”, ia diminuindo o choro, mas, com certeza, ainda sentindo a dor. Parecia que a mãe estava preocupada em fazer seu filho parar de chorar mais para se sentir aliviada, do que ajudá-lo e acompanhá-lo na experiência inevitável da dor. Na hora, me deu vontade de perguntar se ela já tinha ralado a perna daquele jeito para saber como dói e que esta dor não passa assim tão rápido. Mas me contive e fui embora.

Desde pequenos somos ensinados a não encarar a dor. E isso vai seguindo durante a vida até o momento de nossa morte onde, creio eu, não teremos mais como fugir da realidade. Nas diversas dores que experienciamos durante a vida, acabamos tendo a atitude de não encará-las. Arrumamos sempre alguma explicação ou interpretação da realidade da dor para nos confortarmos. Nosso eu precisa dar um sentido, pois o sentido nos dá a sensação que estamos no controle da situação.

Pode ser angustiante ver alguém querido sofrer, mas creio que é bem melhor acolhê-lo e acompanhá-lo com a verdade da dor do que tentar iludi-lo com a mentira que surge do medo da dor. Pode ser assustador ver a vida te arrancar os elementos que traziam tranquilidade, paz e amor para sua existência, mas aprender a relaxar nesta situação pode nos levar a descobrir uma liberdade simples e pura diante da realidade.

Quando somos crianças e sentimos dor a nossa mãe nos ensina que “já passou”, enquanto ainda sentimos dor. Ao crescermos mais um pouco nos esquivamos de nossas dores, principalmente as emocionais, com outras formas de “já passou”. Comemos, fazemos compras, nos embriagamos, fazemos sexo, trabalhamos, viajamos, enfim fazemos qualquer coisa que nos tire da experiência da dor. Procuramos filosofias que nos digam que tudo é um “aprendizado” para não repetirmos aquela situação, que estamos purificando “carma”, que da próxima vez vai ser diferente etc... Não que eu não creia em carma e aprendizados, mas não se purifica muito carma se apoiando em promessas e expectativas de situações melhores e o real aprendizado que podemos ter com a dor é descobrir que podemos a ficar com ela sem interpretações, sem esperanças e ver que não há problema nisto.

Quando nos abrirmos para a dor sem seguir as emoções que surgem, podemos nos permitir deixá-la desenrolar-se completamente sem estratégias de fuga. Ao fazer isto, acabamos por ver a sua irrealidade, sua não solidez, assim como uma grande liberdade e sabedoria. O mesmo podemos dizer do prazer. Se quisermos lidar com nossa dor temos que lidar com nosso prazer da mesma maneira. Mas para isto precisamos treinar nossa mente e desenvolver a habilidade da abertura da mente e coração.

Como diz Pema Chodron:

“Quando alguém nos culpa, como reagimos? Quando perdemos algo, como reagimos? Quando sentimos que ganhamos algo, como reagimos? Quando sentimos prazer ou dor, é simples assim? Sentimos apenas o prazer ou a dor, ou há todo um encarte que vem junto? Quando ficar curioso sobre essas coisas, olhe para elas, veja quem somos e o que fazemos, com a curiosidade de uma criança nova: o que parecia um problema se torna uma fonte de sabedoria. De modo bem único, essa curiosidade começa a desenraizar o que chamamos de dor do ego ou centramento egoísta, e vemos mais claramente.” (Quando tudo se desfaz – Ed. Gryphus)

Quando temos esta curiosidade autêntica, sem esperanças ou medos, com relação ao prazer e a dor temos a chave que abre a porta para uma vida sem ilusões que atravessa nossas pequenas mortes e nascimentos cotidianos de forma destemida e que nos ajuda a acolher a inevitável dor da morte desta vida com sabedoria.

Em nossas experiências cotidianas não paramos para ver que todo o sentido de esperança que queremos dar pode ser o único obstáculo que nos impede de tocar a verdadeira natureza de nós mesmos. Nos sentimos o tempo todo compelidos a dar uma resposta, um próximo passo, a dar uma continuidade aos antigos padrões. E se não déssemos? O que aconteceria? Talvez caíssemos no agora, no simples e puro agora, sem futuro, sem a busca de soluções. E aí? Sem soluções qual seria o problema?

Certa vez, ao terminar um retiro de meditação, um de meus professores recomendou a todos nós:

“Tenham uma vida simples”.

Refletindo sobre este conselho e conhecendo a vida dele que viajava por várias partes mundo dando ensinamentos, envolvido em vários projetos e vendo que a vida dele não era, aparentemente, nada simples, me perguntava o que era essa simplicidade que ele falou.

Então percebi que este modo de ser simples estava muito mais ligado a uma disponibilidade e liberdade para viver o que é o agora, seja ele alegre, dinâmico e agitado ou triste, quieto e morno, do que na busca de realizar alguma expectativa idealizada de viver que, na verdade, nos aprisiona e complica mais ainda tudo!

Quando descobrimos o espaço ilimitado de nossa mente livre, não precisamos ir a nenhum lugar para encontrar a essência de nossas vidas.

Como diz Gedun Rinpoche:

“Faça uso desta espaçosidade,

desta liberdade e bem-estar natural.

Não procure mais qualquer coisa.

Não vá para a floresta confusa

Procurar pelo grande elefante desperto

Que já está descansando

quietamente em casa,

Na frente de sua própria lareira.”

* Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

Por: Alexandre Saioro