06/04/2013 Noticia AnteriorPróxima Noticia

Avaliações econômicas subestimam impactos de mudanças climáticas

O economista Lorde Stern admite ter subestimado custos e riscos

Lorde Stern publicou primeiro relatório com avaliação sistematizada de prejuízos e custos de adaptação à mudanças climáticas, conhecido como relatório Stern

A mudança climática parece muito mais ameaçadora do que há seis anos, e o mundo marcha na direção de um aquecimento de 4 graus celsius até o fim do século em relação à era pré-industrial, declara o Lorde Nicholas Stern, professor de economia e diretor do Instituto Grantham de Pesquisa na Escola de Economia de Londres.

Stern pediu modelos climáticos novos e mais precisos, e melhores avaliações econômicas de impactos climáticos, mas sustentou que o principal obstáculo à ação é a vontade política.

O ex-economista chefe do Banco Mundial criticou sua própria revisão de 2006 sobre a economia da mudança climática, um documento considerado seminal para as discussões sobre a mudança climática, que estimaram que o custo geral da mudança climática reduziria pelo menos 5% do crescimento do PIB todos os anos.

De acordo com Stern, a revisão subestimou o “imenso risco” do aquecimento global. Ele fez uma admissão e alerta semelhantes no começo deste ano durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Discursando na sede do Fundo Monetário Internacional em Washington, capital, Stern descreveu uma imagem sombria de emissões no topo das projeções da Revisão Stern, com o declínio do gelo marítimo e a acidificação oceânica ocorrendo mais rápido do que o antecipado, e impactos crescentes de feedbacks e pontos críticos não levados em conta em modelos climáticos.

De acordo com Stern, a atual taxa de emissões de gases estufa alertará muito mais o mundo do que os esperados 2 graus Celsius acima de níveis pré-industriais até o fim do século.

Mesmo se nações cumprirem os acordos de reduções de emissões feitos na conferência de mudança climática das Nações Unidas em 2010, no México, as temperaturas subirão entre 4 e 5 graus, fazendo com que as fronteiras de desertos, linhas costeiras e rios sejam redesenhadas. Esses problemas do bem estar humano precisam ser levados em conta em modelos climáticos, lembrou Stern.

Mudanças que afetam a vida

Ele recorreu ao exemplo de modelos climáticos que preveem uma perda de 20% na agricultura da Índia com um aumento de 4 graus Celsius na temperatura.

Os modelos não levam em conta a deterioração devido à perda de neve no Himalaia que levaria à destruição de rios, ou as mudanças radicais na monção do sul asiático. “Algumas das perguntas que precisamos fazer se referem ao que realmente afeta a vida humana – eventos climáticos extremos, inundações, desertificações. É isso que afeta a vida humana”, lembrou Stern.

Também ausentes de modelos climáticos atuais são os duradouros impactos dinâmicos de eventos climáticos extremos. “Alguns de meus amigos paquistaneses tentaram descrever o que aconteceu durante as enchentes de 2010. Eles disseram que o desenvolvimento recuou 20 anos. Se o desenvolvimento recuar em 20 anos a cada 10 anos, você está retrocedendo”, declarou ele.

De maneira semelhante, de acordo com Stern, avaliações econômicas subestimam impactos da mudança climática, põem um preço modesto sobre o carbono, e não abrem espaço para a perda de capital, trabalho e terras no futuro. Os cenários econômicos não conseguem reconhecer que gerações futuras podem ser mais pobres e que o crescimento pode ser revertido. Ele chamou a discussão sobre descontos na mudança climática de “puramente horrível”.

Outra grande falha de políticas econômicas, apontou ele, é o preço de hidrocarbonetos. “Não é possível acreditar em duas coisas ao mesmo tempo – que o preço dos hidrocarbonetos está certo e que o mundo tem 50% de chance de se manter em 2 graus Celsius”.

O economista lembrou que o mundo precisa fazer a transição para uma economia de baixo carbono com inovação, investimento e dinamismo. “Temos que ver esse caminho alternativo como revolução industrial da nova energia. Precisamos dividir a produção de emissões por um fator de sete ou oito”, declarou Stern, apontando os custos cada vez menores da tecnologia de energia solar como evidência de que isso pode ser feito.

Ainda de acordo com Stern, o progresso técnico é necessário não apenas na tecnologia de energia alternativa, mas também em hidrocarbonetos, e para o desenvolvimento de outros combustíveis de baixa emissão, como o gás natural, na transição para economias livres de combustíveis fósseis.

A inatividade política na mudança climática pode decorrer da crise econômica global, mas Stern foi enfático ao dizer que o crescimento e a administração climática não são anti-éticas. “Precisamos ser muito cuidadosos ao pensar sobre o desenvolvimento, mitigação e adaptação como uma coisa só. Às vezes eles se separam. Esse é um erro lógico e político de grande magnitude”, apontou ele.

A mudança climática na agenda do FMI, Banco Mundial

De acordo com Stern, é hora de governos investirem no crescimento de baixo carbono com políticas claras e confiáveis, e instrumentos para administrar riscos. “Não podemos pensar nisso como sendo uma corrida de cavalos entre o crescimento e a responsabilidade climática’.

O ambiente político para ação sobre a mudança climática em 2014 é o melhor possível, observou Stern, com o presidente Obama e o Secretário de Estado John Kerry, o premiê chinês Li Keqiang, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande prometendo ação para reduzir emissões, promover a energia limpa e taxar o carbono.

A chefe de administração do FMI, Christine Lagarde, e a vice-presidente de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial, Rachel Kyte, também falaram durante o evento, colocando o peso combinado de suas instituições por trás da política econômica climática.

De acordo com Lagarde, o mandato principal do FMI é fornecer conselhos políticos e assistência técnica a países em todos os problemas direta e indiretamente relacionados ao problema do crescimento, e a mudança climática é central para o levantamento de receitas, sustentabilidade e estabilidade. “O mesmo vale quando oferecemos alguma experiência sobre o preço do carbono. Precisamos manter os preços certos. Eles têm muitas ramificações em termos de mudança climática e levantamento de receitas”, explicou Lagarde.

Lagarde e Kyte declararam que o papel de instituições financeiras globais é amortecer a queda das pessoas pobres quando a mudança climática puxar o tapete delas. Portanto, de acordo com Kyte, “Não é bizarro, estranho, esquisito, ou fora do ponto que o FMI e o Banco Mundial se juntem para falar sobre a mudança climática como o próximo grande risco econômico”.

Por Nayantara Narayanan e ClimateWire

Por: Uol /Scientific American