Jornal Século XXI - Fale um pouco sobre sua trajetória.
Gilberto Sader: Em 1970, meus pais tinham uma loja de doces super modesta na na rua Dante Laginestra (depósito de doces Nova Friburgo), minha mãe Thereza Sader produzia em escala super tímida os doces em sua residência, em seu fogão doméstico. Aos 19 anos perdí meu pai, Getúlio Simão Sader que faleceu súbitamente. Assumi a lojinha enquanto minha mãe continuava a produzir os doces em sua residência. Iniciei modificações na loja, melhorando o seu visual e, trocando o nome para DOCES SADER. Depois, minha mãe comprou um terreno e construiu a fábrica dos DOCES SADER, no bairro Paraíso. Nesta época, a fábrica produzia basicamente para a loja que absorvia aproximadamente 80% da produção. Em 1990 Inaugurei a nova loja na Praça do Suspiro que se tornou referência na cidade. Em 2002 minha mãe aposentou-se e assumí também a fábrica, realizando uma série de mudanças e abrindo novas frentes e clientes. Veio o dia 11 de janeiro de 2011, a loja foi totalmente devastada pela tragédia; perdí 90% do negócio entre estoque, maquinário e a loja ficou 40 dias fechada.
Perdi muitos bens materiais, mas não a fé em Deus, o que me impulsionou a reconstrui-la, embora sabedor das dificuldades da época e seus reflexos futuros. Perdi bens, não perdi a fé!
Jornal Século XXI: - Porque você valoriza tanto os trabalhos relacionados a comunidade libanesa e também aqueles que você realiza através do LIONS CLUBE de Nova Friburgo?
Gilberto Sader: Meu pai era filho de Simanhan Simão Sader, imigrante libanês, razão que certamente me levou a amar a história do oriente médio, principalmente quando comecei a ler sobre o Líbano e descobri as belezas e as riquezas deste berço cultural, inegável patrimônio da humanidade, e que legou ao mundo o alfabeto fonético, a muita poesia, medicina, pensamento filosófico, navegação, matemática, etc... Minha paixão me levou a honradamente presidir essa comunidade. Já trouxe a Nova Friburgo o então cônsul geral do Líbano dr, Bahjat Lahoud, o novo cônsul dr. Ali Daher, o embaixador dr. Fouade El- Khouri e o arcebispo maronita Dom Edgar Madi. Também o presidente das Entidades Líbano-Brasileiras dr. Nellson Moufarrej e o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Líbano, sr. Georges Hage. Essas visitam sem dúvida muito abrilhantaram o nosso município. Essas ações me propiciaram o privilégio de ser convidado para receber o então presidente do Líbano, Emile Lahoud e o atual Michel Sleiman quando em suas visitas ao Rio de Janeiro. Criei a Associação Cultural Líbano-Friburguense com intuito de manter vivas tradições libanesas em homenagem aos nossos imigrantes.
Quanto ao LIONS, entrei em 1995, a convite do saudoso Elias Antônio Yunes Jr. Em 1999 me elegeram presidente do Clube, mais um desafio gostoso que enfrentei. Em minha gestão, criei o Banco de Cadeira de Rodas e a campanha O Lions leva você ao Teleférico, Castor Bike, que em 12 anos de atividades ininterruptas já distribuiu aproximados 14.000 brinquedos em nossas áreas carentes e trouxe a cidade cerca de mil convencionais para a XV Convenção do distrito LC-11. Prestamos ho-menagens a praticamente todas as colônias representativas em nossa cidade. Ainda como “leão”, resgatei o Baile do Candelabro. Com essas ações mostrava para nossa comunidade o que representa essa Instituição para os friburguenses. Recentemente fui intermediário entre o Lions e o Sebrae-NF para aquisição de 10 computadores que estão sendo preparados para a instalação de uma escola de informática a jovens sem condições de pagar por essas aulas.
Jornal Século XXI - Que avaliação você faz sobre a recuperação do turismo de Nova Friburgo depois da tragédia de 11 de janeiro e, principalmente, às questões relacionadas ao importante ponto turístico da Praça do Suspiro?
Gilberto Sader: Tivemos o pior desempenho de turistas em Nova Friburgo, desde o nosso conhecimento, mas era totalmente previsível. Esse ano, ainda muito presente na lembrança de todos, o nefasto 12 de janeiro, que além de deixar um imenso caos na cidade por conta destruição, das mortes sem precedentes em nossa história, da lama seguido pelo forte odor e poeira a níveis críticos, não tivemos uma divulgação a contento pelas autoridades competentes que levasse informações principalmente para o Rio de Janeiro e Niterói, nossos principais emissores de turistas, de que a cidade está “recuperada”. A paralisação do complexo do teleférico, um dos nossos mais importantes ícones turísticos também é um fator muito negativo. Aliado a esses fatos, esse é o “ano sem feriados”, fora a Semana Santa, que estava ainda muito próxima das lembranças do “cataclisma”. Só tivemos um feriado importante, 15 de novembro (terça-feira) entretanto ficou totalmente abaixo das nossas expectativas. Creio, que só teremos um início do retorno dos nosso importantes turistas após a temporadas das chuvas e, isso, se não acontecer nenhum fato que venha a impactar negativamente na mídia. A Praça do Suspiro é hoje a que tem a possibilidade de concentrar o maior número de atividades: turísticas, culturais, lazer e religiosas. Digo possibilidades, por sua atual inércia. Esse local jamais poderia ser esquecido e/ ou relegado a 2º ou 3º plano; é ele o que tem a possibilidade de ser o principal alavancador do do nosso turismo no centro da cidade. Essa Praça têm várias tradições que vão desde os tempos dos nosso avós, que começou com a Fonte e a lenda de quem bebia daquela água jamais esqueceria nossa cidade.
Jornal Século XXI - Em relação a Nova Friburgo, como vê a situação econômica do município. Quais são as nossas perspectivas para o futuro?
Gilberto Sader: Infelizmente, assistimos passivamente o declínio de nossas principais e grandes empresas, vendo-as saindo pelo gargalo, vítimas da exorbitante carga tributária, a competição desleal que a China “impõe’ ao Brasil e, que nossas autoridades maiores ainda não se deram conta de que, ou é tomar uma atitude agora ou chorar a falta de empregos em um espaço de tempo já bem próximo. O governo do Estado do Rio ainda criou uma lei de incentivo para Empresas se instalarem em áreas rurais, não previram que, com esse incentivo as Empresas estão migrando das cidades para esse locais em troca dos incentivos fiscais. Esse dado também precisa ser revisto com urgência, ou todas Empresas correrão para o municípios vizinhos que oferecem essa vantagem. Creio que já respondi acima, e acrescento que se não tivermos uma política de fato em relação ao turismo, em bem pouco tempo Nova Friburgo perderá totalmente sua identidade. Não seremos nem uma cidade turística, nem industrial. Não saberei dizer qual referência, teremos.