O auditório do SENAI se tornou pequeno para o público que foi assistir ao 6º Fórum de Segurança de Nova Friburgo – Alerta Geral, realizado pelo CONSEG (Conselho de Segurança) quarta-feira, 30 de novembro, das 19h às 22h. Foram apresentados três painéis, com palestras de especialistas do Departamento de Geografia e Instituto de Geociência da UFRJ, palestras da Defesa Civil e do 6º Grupamento de Bombeiros Militar e da neuropsicóloga Juliana Dantas (também da ONG Viva Rio). Os temas foram em torno da catástrofe de 11 de janeiro: “11 de janeiro: o que aconteceu?”, “Providências: estamos preparados?”, e “Estresse emocional: sabemos controlar?”.
De acordo com o advogado Rodrigo Guimarães, presidente do CONSEG, o objetivo do fórum foi o de “proporcionar à população e à sociedade civil uma última oportunidade antes do período das chuvas, para saber os preparativos em função da tragédia; saber o que se deve fazer de prático e conhecer noções de controle emocional. O CONSEG tem um objetivo principal que é o de identificar onde a sociedade civil pode atuar. As autoridades têm que desempenhar suas atividades de maneira técnica, preparando diagnósticos, para se tomar providências práticas. Não podemos ficar desinformados. Precisamos nos preparar e colaborar com o poder público e, portanto, podermos salvar as nossas próprias vidas”.
Representando o prefeito Sérgio Xavier, Cel Hudson Miranda, secretário de Ordem Urbana, falou sobre a importância da união e da coragem para enfrentar as situações de crise. “ A nossa mensagem é a mensagem de união. O Governo Municipal, através do prefeito, Sérgio Xavier, acredita que somando forças e esforços poderemos cuidar do nosso bem maior: a vida. Juntos estamos nos preparando para o período das chuvas.” Concluiu.
A geóloga da UFRJ, Ana Luiza Coelho Netto disse que o que aconteceu em Nova Friburgo foi um evento extremo de chuva, que deixou no seu rastro inúmeros deslizamentos nas encostas que convergiram para os leitos dos rios e causaram perdas de vidas humanas de proporção catastrófica, que sensibiliza até hoje, não somente aos especialistas, mas toda a população. “Nós dividimos a nossa apresentação em duas partes: a primeira sobre as chuvas e a segunda de que modo elas se apresentaram para causar os deslizamentos”.
O biólogo Anderson Mululo Sato, doutorando em geologia pela UFRJ, iniciou sua apresentação demonstrando o quadro macro-climático no Brasil no período, que estava sobre influência da Zona de convergência do Atlântico Sul. “Nessa parte sul do oceano foi como se houvesse uma sucção da umidade do Norte, o que originou a formação de uma imensa massa que pode ser observada no dia 10 de janeiro, às 15h, se deslocando para o Sudeste. No dia 11, ela estacionou especificamente sobre o Rio de Janeiro, que registrou precipitações de 80 mm. Nesse dia, por volta das 15h, houve um intervalo de quatro horas sem chuva. Mas às 3h da manhã foi verificada a pior manifestação meteorológica em toda a cidade, muito acentuada”, informou.
Segundo os especialistas, a precipitação não fugiu ao que era esperado em outubro, mas com grande elevação nos índices pluviométricos em dezembro: de 400 mm, sobre o esperado de 250 mm/mês. O solo foi excessivamente encharcado, ficando saturado. Esses dados foram obtidos em mapas de chuva de 47 estações nas Regiões de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis.
“Córrego Dantas foi a localidade mais afetada, com índices de 200 mm durante a noite. Foram verificados mais de 16 deslizamentos por km²”, informou Ana Luiza, que detalhou, em seu diagnóstico, como essas precipitações afetaram o solo, causando grande quantidade de deslizamentos. Para Ana Luiza, esse tipo de fenômeno que ocorreu não pode ser previsto, e Nova Friburgo está longe de estar segura de novas ocorrências. Por isso, a palestra foi no tom de alerta, já que diversas residências estão construídas em áreas de risco, próximas a rios e encostas. “É fundamental a realização de um estudo mais aprofundado que descreva as rotas de deslocamento das águas, um mapa que defina como e onde as pessoas podem ocupar”, alertou a geóloga.
O coordenador de Defesa Civil de Nova Friburgo, ten. Cel. João Paulo Mori, falou, em seu painel, sobre as providências que já foram tomadas, juntamente com o cel. Palência, do 6º GBM. Em quatro meses a frente da secretaria, Mori disse que está tentando preparar a cidade para o período de chuvas, que não dá para evitar. Primeiramente, ele explicou que a previsão para esse verão é o de chuvas dentro da normalidade, sem chuvas fortes. “Mas, independente disso, temos que estar preparados”, falou.
Mori disse que, infelizmente, não existe uma cultura de prevenção, mas que a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros estão nas escolas e empresas realizando treinamentos. “Estamos nas comunidades, realizando palestras, mostrando os pontos seguros (pontos de apoio), para onde e como se deslocar até eles de forma tranqüila. Esses pontos já foram catalogados e entregues às comunidades que possuem áreas de risco”, disse.
Orientação e capacitação agregadas a outras medidas, como a instalação de sirenes (o sistema de alerta e alarme), foi outra providência. “Pretendemos avisar com antecedência de no mínimo duas horas. Já treinamos 10 comunidades, com grande participação nesses simulados. Informar é importante. Estamos fazendo campanhas em que orientamos a população a ter, por exemplo, um rádio de pilha próximo, pois uma rede de comunicação foi criada com a participação de todos os veículos de comunicação da cidade. Também vamos implantar torpedos de alerta SMS, para as pessoas cadastradas nas comunidades, durante os simulados, receberem informação. A informação tem que chegar até as pessoas, principalmente sobre o tempo, as chuvas, para que as medidas preventivas de segurança sejam tomadas”, alertou.
Sobre a palestra da geóloga da UFRJ, Mori disse que muitas das informações apresentadas por ela ratificaram algumas opiniões da Defesa Civil. “Qualquer informação sempre ajuda. E para a Defesa Civil a realização do fórum foi importante para mostrarmos o que realizamos em pouco tempo”.
Mudar a cultura sobre prevenção foi o início da fala do cel. Palência, do 6º GBM. Palência lembrou a importância da criação do CODENF e do comitê de gestão estratégica, responsável por agregar o trabalho das várias instituições e entidades que se mobilizaram e continuam mobilizadas, como a associação de rádios-amadores. “Eles precisavam de uma nova torre de transmissão no pico do Caledônia, de recursos para adquiri-la e de autorização da Petrobrás para instalá-la. Conseguimos isso, para garantir uma rede de comunicação eficiente, pois em janeiro, com a queda da energia, tivemos problemas em comunicação”, disse.
A criação da página do 6º GBM na internet (www.6gbm.cbmerj.rj.gov.br), que contém o curso básico de preparação para desastres, com orientações através de vídeos de como se comportar e o que fazer em relação aos alagamentos e deslizamentos, como ler o pluviômetro e outras orientações. Proposta de criação da Secretaria Municipal de Defesa Civil. Plano de apoio integrado à Defesa Civil (PAINF), para que todas as instituições deem apoio ao órgão durante necessidades. Programa de Preparação das Comunidades, das empresas e das escolas. Programa de Contra as Queimadas. “Essa é a ideia, da mudança cultural que esperamos”, afirmou cel. Palência.
O terceiro painel, com a neuropsicóloga Juliana Dantas finalizou o fórum falando sobre o estresse por que toda a cidade passou e que ainda vive. Quais as patologias resultantes desse estresse ocorrido em janeiro e como se portar para conquistar a saúde mental. “Não há um preparo específico de como se preparar para evitar o estresse, mas isso que está acontecendo aqui (o fórum) já é uma forma de buscar a saúde mental. E nós estamos num processo de preparação de tragédia”, disse.