16/06/2020

Explicando a Anitta

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Motivado pelo despertar da curiosidade de Anitta acerca das origens sociais dos acontecimentos políticos atuais no Brasil e no mundo, converso neste artigo (por telepatia) com ela."

EXPLICANDO A ANITTA

RESUMO:

Motivado pelo despertar da curiosidade de Anitta acerca das origens sociais dos acontecimentos políticos atuais no Brasil e no mundo, converso neste artigo (por telepatia) com ela. Tento explicar a Anitta que, para compreender o presente e imaginar o futuro, é preciso conhecer o passado. Digo a ela que a forma com que o sistema educacional é estruturado, voltado para a competição e não para a formação do indivíduo e do cidadão, explica nossas dificuldades com a compreensão e o aprendizado.

Digo também que a aquisição de uma opinião madura, razoável e sensata depende de muitas e muitas horas de estudo. Mas falei que é por isso que existem os mediadores, os que formam as mídias. São pessoas que se dedicam a traduzir a miríade caótica dos fatos econômicos, culturais e políticos que jorram do dia a dia.

Este artigo está dividido em três partes: presente, passado e futuro. Depois de indagar sobre a forma pela qual adquirimos o conhecimento e de fazer uma análise social e política da atualidade, convido Anitta para um passeio pela História. Depois desse longo passeio, ficamos mais aptos para extrair sentido dos fatos do presente e para imaginar estratégias políticas em prol de um futuro melhor. Na minha opinião, tendemos a caminhar novamente para a tentativa de síntese entre o capitalismo e o comunismo. Só que, desta vez, seremos obrigados a acrescentar a dimensão ambiental, pois estamos descobrindo a duras penas que o impacto da atividade econômica sobre a natureza afeta negativamente a Biosfera como um todo. Assim, vejo no horizonte o surgimento de um movimento político na direção de um ecossocialismo libertário e global.

1. O PRESENTE

Anitta representa fisicamente um tipo médio brasileiro. Sua correspondência masculina é o Neymar. Ambos são representantes de uma beleza mestiça na qual as três raças que formam os brasileiros estão presentes.

O Brasil é o país da mestiçagem e do sincretismo. Talvez em nenhum lugar do mundo tantos povos diferentes se encontraram e fundiram seus corpos e culturas de uma forma tão harmoniosa. A história da Praça Onze, um dos berços do samba, é o retrato dessa ideia.

Anitta veio recentemente a público expressar sua preocupação com os rumos do País. Ela reconheceu com sinceridade e humildade sua ignorância e demonstrou interesse em ampliar sua visão de mundo e em adquirir as ferramentas conceituais básicas que permitem ao cidadão comum compreender os fatos sociais e políticos. Somente assim é possível existir uma opinião pública sensata, um voto consciente e uma democracia funcional.

Como fã de Anitta, gosto de cantar e tocar no violão algumas de suas músicas. Como articulista do Século XXI há mais de vinte anos, venho me dedicando ao estudo dos principais temas sociais e políticos do Brasil e do mundo. Gostaria, então, de convidá-la, Anitta, para uma reflexão sobre o momento atual.

Na verdade, o sistema político brasileiro recusa-se a reconhecer o óbvio: só é possível votar conscientemente o eleitor que estiver plenamente consciente da história da humanidade, dos mecanismos que regem a democracia e do desenrolar dos acontecimentos políticos.

Vivemos num mundo no qual as pessoas capazes e de bem estão cada vez mais abandonando a política. Como qualquer um de nós pode se tornar de uma hora para outra uma celebridade a partir do conteúdo que posta e dos seguidores que angaria nas redes sociais, parece que não vale mais a pena gastar o tempo e correr os riscos que a vida pública requer. É mais seguro e produtivo ficar em casa postando os nossos pequenos feitos diários. Afinal, não basta ter e fazer as coisas que temos e fazemos. É preciso, também, que as pessoas desejem ter e fazer o mesmo. A filosofia e a psicanálise nos ensinam que não apenas desejamos as coisas, mas, principalmente, desejamos o desejo do outro.

Criamos, então, um mundo hedonista no qual a vida se torna uma sucessão de prazeres e os sacrifícios e adiamentos se tornam pesados e impossíveis. Tudo é pra já.

Adquirir as ferramentas que possibilitam a leitura e a compreensão do mundo social, cultural, econômico e político dá muito trabalho e requer uma boa dose de renúncia dos prazeres mais imediatos. São horas de leitura de livros, revistas e jornais; horas de aulas, filmes, peças de teatro e apreciação de obras de arte. Essa paixão pelo conhecimento é passada de geração em geração. Em determinadas classes, culturas e épocas ela está mais aflorada. Em outras, tende a ser esquecida. Mas sempre rebrota e com mais força. A curiosidade e o desejo de saber são instintos humanos.

Só que, – e, para mim, aí está a raiz do problema –, nosso sistema educacional está voltado para formação de competidores para um vestibular que cobra a memorização do conhecimento de uma forma inútil, o que corta o interesse pelo saber, que fica sendo visto somente pelo seu lado utilitário.

Mas o conhecimento, pelo contrário, é a chave da autorrealização do ser humano e deveria ser tratado como um instrumento de promoção humana e não de competição por uma vaga numa universidade pública. Até porque é uma competição desigual dado ao fato da extrema disparidade das condições de ensino entre as escolas públicas e privadas. Nosso sistema educacional foi projetado para a elite branca do século XIX.

Sabemos hoje que existem várias formas de inteligência. As inteligências audio-verbal, viso-espacial, linguística, corporal-cinestésica e emocional são algumas delas. Saber ler, escrever e calcular são habilidades cognitivas importantes, mas é possível uma pessoa ser inteligente e criativa e, ao mesmo tempo, ter enorme dificuldade com a leitura, a escrita e o cálculo. Essas habilidades cognitivas são relativamente recentes em comparação com à história da humanidade. A escrita surge há seis mil anos, enquanto que o fogo foi dominado há 300 mil anos atrás e nossa espécie, homo sapiens, existe há cerca de 200 mil anos.

Povos como os judeus dominam a escrita e o cálculo numérico há pelo menos quatro mil anos. Não é à toa que são muito destacados na produção científica e cultural. O mesmo podemos falar dos orientais com suas civilizações milenares. Os europeus também estão em contado com a escrita há muito tempo, tendo sido os gregos antigos os responsáveis por, ao adaptarem o alfabeto fenício, criar uma eficiente escrita silábica, o que revolucionou a forma de adquirir conhecimento na época.

Agora, pense bem, querida Anitta, existem povos que só muito recentemente entraram em contato com a escrita e o cálculo numérico. Pensemos nos índios e nos negros. Há algumas poucas gerações atrás eles não tinham tido a necessidade de adquirir essas habilidades cognitivas, e isso simplesmente porque não precisavam delas. Entretanto, têm outras habilidades que nos brancos estão se atrofiando: habilidades corporais de quem vive em florestas e savanas; sexualidade sem a vergonha de quem vive tapado por panos; intuição de quem vive em contato com a natureza e tem a necessidade de conhecer suas lógicas e desejos; liberdade do medo da morte daqueles que entendem o ciclo da vida e ainda não foram contaminados pela paranoia do pecado das religiões monoteístas.

Não estou afirmando que as pessoas de cor têm deficiências cognitivas em relação a outros povos. Estou dizendo que elas possuem inteligências com ênfase em habilidades distintas. Machado de Assis, por exemplo, o maior escritor de nossa literatura, era mulato. Tivemos e temos grandes artistas e intelectuais índios, negros e mestiços. Mas, quando falamos em educação pública, onde se encontra a imensa maioria das crianças de cor, devemos levar em conta essas considerações.

É claro que um sistema educacional que não leve em consideração as diferentes origens sociais, culturais e étnicas só vai afastar os jovens da escola. Esses jovens vão buscar, então, outras referências para a formação de seu caráter e a canalização de seus talentos. Se a escola não reconhece teus talentos e te cobra coisas que jamais poderás cumprir, alguém acabará por te reconhecer, acolher e proteger. Essas figuras que vão servir de identificação para esses jovens geralmente ascenderam socialmente sem ter que passar pelo ensino formal. Esses modelos estão em dois grupos. No primeiro grupo estão os modelos lícitos, compostos pelos jogadores de futebol e pelos artistas, principalmente os músicos. No segundo grupo, os ilícitos, estão as pessoas que se destacam em atividades fora da lei. Pois nossa sociedade estimula excessivamente a distinção social através das posses, mas não do pertencimento a um grupo através do mérito e da revelação do talento. A religião já cumpriu e ainda cumpre bastante esse papel. Mas para quem não se interessa ou dá pouca importância à via religiosa, como fazer para alcançar o reconhecimento social através do pertencimento a um grupo? A escola certamente teria esse papel.

Há, no fundo, no descaso do Estado com a saúde, com a educação e com as condições de moradia e de segurança da maior parte da população um componente racista. Vemos nas periferias, que geralmente são áreas de exclusão socioambiental, Anittas e Neymares sem as condições mínimas para o desenvolvimento de seus talentos.

O futebol e a música são as vias mais potentes para se dar vasão ao irrefreável instinto de autorrealização de si mesmo. Porém, são insuficientes. É aí que entra você, Anitta, ídolo de multidões de jovens que amam a música, a dança e a sensualidade que a sua arte emana. Você resolveu despertar do sono da alienação pelo hedonismo para, sem negar seus valores e talentos, demonstrar sua vontade de saber. Você cobra dos intelectuais uma linguagem compreensível, simples, acessível ao jovem médio que não teve condições de adquirir o conhecimento necessário para dominar as ciências sociais: filosofia, história, geografia, antropologia, sociologia e ciências políticas. Deveríamos passar toda a juventude adquirindo e exercitando esses conhecimentos para poder nos tornar adultos politicamente responsáveis.

Acho que a imbecilização da nação, que atingiu seu apogeu na eleição do atual governo, se deve em grande parte a como a televisão foi implantada no Brasil, em como a ditadura militar criou grandes redes nacionais de televisão. Pão e circo para o povo não despertar a consciência crítica.

Aí entra a questão da sexualidade. Parece que as redes Globo e Record fazem uma operação casada. A primeira desperta o desejo sexual precoce, a cobiça e a intriga enquanto que a segunda oferece consolo para a frustração e o ressentimento de quem desejar o inalcançável.

Como argumenta o sociólogo Jessé de Souza em seus livros, o racismo foi atualizado no Brasil através de duas frentes: a associação dos partidos de esquerda à corrupção e à política de guerra às drogas. Os socialistas, os que têm em seu programa político a redução das desigualdades étnicas e sociais, acabaram sendo identificados como os responsáveis por toda a corrupção do mundo, enquanto que a direita é poupada de investigações tão aprofundadas quanto as que foram dirigidas à esquerda. Na política de guerra às drogas, são os jovens de cor das áreas de segregação sócio-espacial as principais vítimas da violência policial.

E o que une, cara Anitta, essas duas políticas racistas? O financiamento bilionário das chamadas indústrias sujas, sendo as principais as de petróleo, mineração, armas, tabaco, jogo e agro-business. Todas essas indústrias agem no sentido de uma contrarreação aos avanços dos direitos humanos e da proteção ambiental, fruto do espírito de rebeldia e de contestação dos jovens, das mulheres, dos operários e dos negros na época do simbólico mês de maio de 1968.

Outro aspecto da reação da direita se dá no campo dos costumes. Por trás disso estão as lutas pela igualdade entre homens e mulheres.

Cada salto tecnológico dado pela humanidade corresponde a uma mudança nas regras que regem o relacionamento entre homens e mulheres. A Primeira Revolução Industrial trouxe a possibilidade da abolição da escravidão, pois as máquinas a vapor passaram a fazer o trabalho dos escravos. Na Segunda Revolução Industrial, quando entra em cena o motor a explosão e a eletricidade, a mulher assume postos de trabalho quando os homens vão para a guerra. Na Terceira Revolução Industrial, que traz a informática e a robótica, a maior parte dos empregos migra da indústria para os serviços. Nesse novo cenário, as mulheres atingem o protagonismo, pois sendo tão inteligentes e criativas quanto os homens, possuem uma inteligência emocional mais refinada, que agora é mais valorizada do que a força bruta. Descobre-se, então, as qualidades dos homossexuais, que, além da inteligência emocional feminina, possuem a qualidade para o sistema produtivo de não engravidarem. Por fim, as pessoas de cor, ao ingressarem na universidade pelo sistema de cotas, passam a competir no mercado de trabalho. Tudo isso levou ao ressentimento do macho adulto branco que foi desbancado de seus privilégios e tem que se reinventar no limiar da Quarta Revolução Industrial da inteligência artificial e da internet das coisas.

Sim, Anitta, é tudo muito complicado e requer muita informação. Precisamos gastar grande parte de nosso tempo lendo livros e acompanhando jornais para estarmos a par da situação e emitirmos uma opinião consistente, como a que estou tentando passar para você. Mas, felizmente, como existem pessoas talentosas como você na arte de cantar, dançar e compor, e na arte de jogar futebol, como o Neymar, existem também verdadeiros craques do pensamento, os intelectuais, que passam enormes quantidades de tempo em frente a folhas de papel e telas de computador tentando traduzir, mediar o conhecimento para as pessoas que não têm tanto tempo assim nem tanto interesse no mundo das ideias e na interpretação dos fatos.

Para entender a barafunda na qual nos metemos é preciso recuar no tempo, ir lá nas origens da humanidade e refazer seu percurso até os dias atuais. Não tem outro jeito.

Na Grécia Antiga, o filósofo era considerado um parteiro, aquele que ajudava as pessoas a parirem suas próprias ideias. Sócrates chamou isso de maiêutica, pois a palavra maia significa em grego parteira. Maiêutica, para ele, é uma relação dialética, feita através do diálogo. Então, Anitta, vamos de dois.

2. O PASSADO

O drama humano vem de longe. O primeiro hominídeo se separou do ramo dos macacos há cerca de dois milhões de anos. Para efeito de comparação, a vida na terra começou há quatro bilhões de anos e estima-se que o universo tenha uns quinze bilhões de anos.

A partir de cerca de setenta mil anos atrás houve o que se chamou de Primeira Revolução Cognitiva, quando começamos a produzir símbolos e mitos. O mito foi a primeira forma de tentativa de compreensão do mundo e de transmissão do conhecimento. O mito tem sua lógica e os antropólogos dos séculos XIX e XX documentaram uma enorme quantidade de mitos, ritos e costumes de milhares de povos ainda isolados do mundo moderno, demonstrando, assim, a enorme variedade, plasticidade e diversidade das civilizações e culturas que floresceram em nosso planeta. As formas de parentesco, por exemplo. Um antropólogo chamado Lévi-Strauss (1908-2009) descreveu centenas de soluções para a organização da família pelo mundo todo.

O relacionamento com a natureza é muito sofisticado nas culturas não modernas. O animismo permite que, ao se sentir uno com a biosfera e o ecossistema, o homem “primitivo” ou arcaico tenha uma relação diferente com a morte da que temos hoje nas religiões monoteístas, impregnadas de noções de culpa e de castigo.

Os povos não modernos ou tradicionais usavam, e ainda usam, sistemas de troca econômica baseados no que os antropólogos chamam de o dom ou a dádiva. As primeiras formas de troca entre as pessoas da tribo e entre as tribos entre si de deram através de doações recíprocas. Era assim que nossos ancestrais trocavam bens e firmavam alianças.

Há quem diga, como o bio-historiador Jared Diamond, que a agricultura foi a pior ideia que a humanidade já teve. De fato, o acumulo de excedentes agrícolas está na origem das grandes aglomerações urbanas e das epidemias; da burocracia, da escrita e das castas; da manutenção dos exércitos; da exclusão da mulher da vida pública; e do aparecimento da desigualdade entre as classes sociais. Surgiram, então, como consequência da agricultura há cerca de seis mil anos, as primeiras cidades e os primeiros impérios espalhados pela Eurásia no Egito, na Mesopotâmia, na Índia e na China.

Entre 600 e 200 anos antes de Cristo (a.C.) esse mundo dos impérios antigos começou a entrar em crise. Foi a era que o filósofo Karl Jaspers (1883 – 1969) chamou de Era Axial, da qual brotaram líderes espirituais como Confúcio (551 – 479 a.C.) na China, Buda (556 – 483 a.C.) na Índia e Jeremias (650 – 586 a. C.) no Oriente Médio. Até hoje recorremos a eles em períodos de crise e desorientação. Foi quando, – e aí, Anitta, começa a história do Ocidente –, apareceu um povo que trazia uma coisa totalmente nova, uma primeira grande síntese cultural. A cultura da Grécia Antiga atingia nessa época o seu apogeu. É o tempo de Sócrates (469 – 399 a.C.), Platão (428 – 348 a.C.) e Aristóteles (385 – 323 a.C.), tempo esse que legou à humanidade seus maiores inventos: a filosofia, a ciência e a democracia. Essas criações iriam submergir durante a Idade Média e só voltariam a aflorar no Renascimento europeu do século XIV.

Os gregos provocaram toda essa revolução porque, além do alfabeto silábico, que facilitou a difusão do conhecimento, começaram a usar a moeda metálica em larga escala, o que colocou o comércio no centro da economia. Assim foi diluído os resquícios das formas de troca tradicionais, como a da dádiva, e foram implantadas as formas de comércio que conhecemos hoje. A mitologia grega tem muitas passagens que aludem às potencialidades e aos perigos dessa grande transformação, representada nos mitos através das passagens que falam das maldições geradas pelos crimes cometidos contra a hospitalidade.

A queda do Império Romano do Ocidente no século V deu origem à Idade Média e ao longo período de formação dos Estados Nacionais Europeus. O cristianismo tornou-se predominante na Europa e devemos a suas concepções de vida após a morte a consolidação da noção de eu e de individualidade do ocidental.

Na Idade Média europeia, as trocas comerciais eram regidas por uma ética religiosa na qual havia preocupação pela justa troca. Além disso, a população era de crescimento estacionário, ou seja, era impedida por regulações religiosas da Igreja de ultrapassar um certo limite, mantendo-se compatível com a oferta de alimentos e de outros recursos naturais.

Durante esse período que convencionamos chamar de Idade Média, as civilizações que ocupavam o leste da Eurásia tiveram um grande florescimento, notadamente a China e a Índia, que, juntas, eram responsáveis por cerca de dois terços do PIB mundial da época.

O Renascimento, quando trouxe de volta as ideias da Grécia Antiga, provocou um grande embate com a Igreja Católica e demorou algum tempo para conseguir implantar uma civilização fundamentada num Estado laico e baseada nos princípios da filosofia, da ciência e da democracia. Muitas cabeças rolaram e pensadores foram mortos na fogueira para que hoje possamos viver no que convencionamos chamar de mundo moderno.

Por volta do século XIV a Europa começou a sair de seu isolamento. A China tinha, através da Rota da Seda, a hegemonia do comércio internacional, origem de negócios e de riquezas, mas, também, via de disseminação de epidemias. A peste bubônica, vinda de bactérias transmitidas por pulgas que infestavam ratos que habitavam os porões dos navios que traziam as mercadorias orientais pelo Oceano Índico, pelo Mar Vermelho e pelo Mar Mediterrâneo até a Europa, devastou dois terços da população desse continente. É possível que a peste bubônica tenha contribuído para o fim do regime feudal e tenha estimulado a inovação e o aumento da produtividade. Por isso, veja a ironia, Anitta, uma pandemia pode estar na origem do capitalismo. E, quem sabe, outra pandemia, a que vivemos agora, contribua para seu fim.

A Queda de Constantinopla em 1453 também foi outra crise que abalou a Europa e que a levou a superar seus próprios limites, dessa vez com os portugueses, que se lançaram ao mar para desbravar uma nova rota comercial marítima para a China e a Índia. A saga de Vasco da Gama foi cantada em verso e prosa em Os Lusíadas de Camões. A coragem, a curiosidade e a abertura para diferentes culturas estão na nossa ancestralidade portuguesa. Os portugueses, ao expulsarem os mouros de Portugal em 1452, foram um dos pioneiros na formação de um Estado Nacional na Europa.

Na Idade Média, a população era, como já expliquei, estacionária. A Igreja tinha uma fórmula religiosa de regular a população controlando a idade dos casamentos. Com a Era dos Descobrimentos aconteceu uma segunda revolução agrícola, que, a partir do intercâmbio de espécies vegetais e animais entre os quatro cantos do mundo, aumentou a oferta de alimentos na Europa. Com mais acesso a novas fontes de alimentos, a população não precisaria mais ser estacionária. Surge a Reforma Protestante com sua ética do trabalho na qual o capitalismo iria vir a se fundamentar. Os casamentos seriam doravante não mais regulados pela religião, mas, sim, pela economia, e a população começou a se expandir continuamente.

O dinheiro agora estava na sua segunda fase, a do papel moeda, lastreado na posse de metais preciosos, principalmente o ouro e a prata. É aí que nós fluminenses e cariocas entramos nessa História, Anitta! Fico emocionado nessa parte, porque fala diretamente de nós e de nossos antepassados brancos, negros e indígenas, relembra seus feitos e esclarece seus carmas.

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro situa-se numa fortificação natural que é a Baia de Guanabara. Ela começou como um entreposto militar no caminho do estuário do Rio da Prata, pelo qual se adentrava o continente até a região de Potosí, grande produtora de prata. A cidade do Rio chegou a ser, no século XIX, o maior porto negreiro fora da África e forneceu os escravos que iriam extrair a prata das minas de Potosí. Essa prata subia até o México e daí seguia para a China, onde seria trocada por porcelanas, mobiliário, seda e especiarias que seguiriam para serem comercializadas na Europa. Veja só, Anitta, a globalização começou no século XVI.

Os portugueses, usando o Rio de Janeiro como base, levavam para a África produtos como açúcar, aguardente e tabaco para serem trocados por escravos. Curioso notar que hoje, no Ocidente, as doenças crônicas que mais matam são causadas pelo excesso de açúcar (diabetes), pelo alcoolismo e pelo tabagismo. É uma espécie de carma.

E muitas outras coisas negativas aconteceram ao Ocidente por conta do genocídio dos povos indígenas e da escravidão promovidos pelos brancos europeus nas Américas. A varíola, por exemplo, empurrou muitos europeus na direção do Novo Mundo e matou tantos indígenas, – estima-se que a população indígena tenha caído de 60 para 6 milhões de pessoas em poucos anos –, que chegou a alterar o clima o planeta. A Terra entrou na chamada Pequena Era do Gelo e teve como consequência um período de fome na Europa por conta dessa alteração climática.

A chegada súbita e maciça na Europa de ouro e de prata vindos das colônias das Américas causou uma grande crise de inflação. Foi um período de intensa atividade da inquisição e os judeus acabaram se tornando os bodes expiatórios. Eles sofreram perseguições, expulsões e massacres.

Mas nem tudo foi só sofrimento. Houve também uma grande síntese civilizatória. Cito como exemplo o surgimento da cultura caiçara. Os portugueses estiveram presentes em Goa, na Índia, onde entraram em contato com o Kama Sutra. Quando os jesuítas por lá chegaram, ficaram escandalizados com a alegria e o empenho com que os patrícios se entregaram àquele tipo de prática. Foram expulsos de Goa para o Brasil e foram dar no litoral sul de nosso Estado, se miscigenando com os indígenas locais e gerando um tipo de cultura cabocla conhecido como caiçara. Acho que os caiçaras retratam bem o modelo de vida que mais atrai fluminenses e cariocas: viver seminu na beira da água, pescando, tomando cauim, fazendo música e dançando em volta de uma fogueira até o sol raiar. Essa é a nossa vocação. Você, Anitta, é uma espécie de sacerdotisa desse nosso tipo de ritual.

Enquanto isso, num mundo dominado pela Europa enriquecida pela exploração colonial e pela submissão de praticamente todo o globo ao seu poderio militar, econômico e cultural, surge a Era das Revoluções Burguesas (inglesa [1642], americana [1775] e francesa [1789]). No século XX seria a vez das Revoluções Proletárias (russa [1917], chinesa [1948] e cubana [1953]).

O século XIX viu aparecer uma série de Invenções como as ferrovias, o navio a vapor, a eletricidade e o telégrafo. Esses avanços tecnológicos levaram a uma segunda onda de globalização conduzida pelas potências Ocidentais. Foi uma era de paz e de crescimento econômico sem precedentes. Porém, tudo terminou nas Duas Grandes Guerras Mundiais (1914 – 1918 e 1934 – 1945). Foi um período em que o Ocidente, apesar do alto padrão de vida aí alcançado, estava, porém, profundamente doente em sua alma a ponto de gerar conflitos tão horrorosos.

Os pensadores começaram a se perguntar o porquê daquilo tudo e a perceber que a própria razão possuía seus limites, que o mito tinha suas razões e que a razão acabava virando mito. Passou-se a pesquisar e a valorizar a cultura dos povos pré-modernos e a se perceber que a modernidade seria apenas uma das possibilidades da existência. Pensou-se, então, que estaríamos chegando a uma Era Pós-moderna, na qual a modernidade encararia seus limites e se abriria para outras realidades e experiências diversas da sua.

O mundo viveu quase todo o século XX dividido entre regimes capitalistas e comunistas. Durante o período das Duas Guerras Mundiais, o nazi-fascismo alemão e italiano se interpunha entre a União Soviética comunista e a Europa Ocidental capitalista. Uma estranha aliança entre países capitalistas e comunistas derrotou a Alemanha de Hitler. Os modernos capitalistas e comunistas se uniram contra o nazi-fascismo, que almejava o retorno a um mundo pré-moderno medieval que já não era mais cabível.

Os anos da Guerra Fria (1947 – 1991) foram de grandes avanços para os direitos dos trabalhadores. Em alguns momentos, mais acentuadamente na época da Grande Depressão da década de trinta, o modelo do comunismo soviético parecia que sairia vencedor. A Europa Ocidental adotou, então, a socialdemocracia, que tentava ser uma terceira via que mesclava as vantagens do capitalismo e do comunismo. Os direitos civis avançaram, as mulheres se emanciparam, os jovens deixaram de ser subservientes aos mais velhos e as pessoas de cor começaram a se libertar de sistemas sociais racistas e segregadores. As preocupações com a preservação ambiental começaram a tomar corpo com a criação de partidos ambientalistas. Um grande movimento de centro-esquerda ganhou força no mundo todo. Os protestos estudantis de maio de 1968 tornaram-se emblemáticos do espírito libertário daqueles anos.

Agora vem a parte mais importante para a compreensão do momento atual. Como é que o Ocidente capitalista, liderado pelos EUA, conseguiu desequilibrar o jogo para o lado do capitalismo? Foi, novamente, a aliança entre o Ocidente capitalista e o comunismo, agora o da China, que deu origem ao chamado neoliberalismo. Lembra-se, Anitta, das guerras do Vietnam e da Coréia? Pois os EUA saíram delas derrotados e não impediram que o comunismo continuasse existindo na China e em outros países do Leste Asiático. Vendo que não seria possível derrota-los, o Ocidente capitalista resolveu se unir a eles contra o chamado Bloco Soviético.

Assim, não só se conseguiu derrubar o socialismo soviético como também enfraquecer os movimentos dos trabalhadores do mundo todo, pois o planeta foi inundado pela mão de obra de milhões de trabalhadores orientais. Dessa forma, a China se modernizou e começou a fazer experimentos sociais que culminaram no que os chineses chamam hoje de “socialismo com características chinesas” e na ideia de “um país, dois sistemas”. Como a socialdemocracia um dia no Ocidente procurou uma síntese ou terceira via entre capitalismo e comunismo, a China está experimentando uma síntese semelhante por outras vias.

O neoliberalismo é neo porque o liberalismo floresceu na época da hegemonia do Ocidente capitalista do século XIX e se manteve até as Guerras Mundiais. Depois do fim do comunismo da União Soviética (1989), houve uma nova onda liberal, o neoliberalismo, que terminou, na minha opinião, em 2008 com a crise do mercado financeiro mundial. De lá para cá houve uma reversão das expectativas econômicas relativas ao processo acelerado de interdependência econômica, científica e cultural entre os povos e as nações. Voltou-se a fechar fronteiras, a construir muros, a adotar medidas protecionistas e a se falar de superioridade étnica e nacional. As semelhanças entre o momento atual e o que precedeu as Duas Guerras Mundiais são alarmantes.

Trata-se, no fundo, Anitta, de momentos de transição hegemônica. E esses momentos são muito frequentemente marcados por guerras. Um dia, na Idade Média, o Oriente foi mais poderoso que o Ocidente. Com o Renascimento e os Descobrimentos, o Ocidente tomou a dianteira. As grandes potências ocidentais se sucederam umas às outras. Cidades italianas, Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra se digladiaram para sucessivamente manterem a hegemonia econômica e militar. O fracasso da Alemanha em obter a hegemonia ajudou os EUA a tomarem a dianteira no Pós-guerra. Os EUA criaram as principais instituições que moldaram o mundo contemporâneo (ONU, OMC, Banco Mundial, FMI) e, depois do fim da Guerra Fria, consolidou o que ficou conhecido como Consenso de Washington, que viria se desfazer na crise dos mercados financeiros de 2008.

A partir de 2008 o ressentimento começou a tomar conta de boa parte do Ocidente capitalista. Foi ficando claro que a desindustrialização causada pela automatização proporcionada pela Terceira Revolução Industrial e pelo deslocamento da indústria manufatureira para países do Oriente com mão de obra mais barata gerou uma massa de perdedores da globalização, as classes médias baixas dos EUA, da Europa e de países da periferia ocidental como o Brasil. Por outro lado, no Oriente, somente a China retirou oitocentos milhões de pessoas da miséria e inseriu-as no mercado de consumo durante o mesmo período.

Acontece, Anitta, que a economia moderna, tanto capitalista quanto comunista, é baseada na indústria e nos transportes dependentes da queima de combustíveis fósseis, causadora do aquecimento global, que tem levado aos eventos climáticos extremos. Isso, somado à derrubada acelerada das florestas, à contaminação dos mares e dos rios e à diminuição da biodiversidade pode inviabilizar a vida humana no planeta. Tudo isso tem relação com o reaparecimento de grandes pandemias que pareciam estar controladas pela ciência através da melhoria das condições de vida no campo e na cidade, da vigilância sanitária, das vacinas e dos antibióticos.

O capitalismo na sua forma neoliberal já não vinha bem das pernas devido a suas limitações financeiras, ambientais e geopolíticas. Marx (1818 – 1883) já havia alertado para o fato de que o capitalismo, por ele estar sempre buscando produzir o máximo com o mínimo de trabalhadores, iria acabar se inviabilizando, pois quem iria comprar os produtos produzidos se haveria cada vez menos trabalhadores empregados? Parece que é o que está acontecendo no momento com o capitalismo. Entretanto, os defensores do capitalismo argumentam dizendo que os postos de trabalho eliminados com o avanço da produtividade proporcionado pelas Terceira e Quarta Revoluções Industriais seriam recriados no setor de serviços. Não vimos isso. Vimos, sim, o desemprego e a precarização do trabalho aumentarem entre nós. A crise dos mercados financeiros de 2008 expôs a forma artificial pela qual a economia americana funciona ao estimular o consumo através de créditos sem lastro. E esse consumo maníaco e sem sentido vai piorando as condições climáticas do planeta por agravar o aquecimento global.

Curiosamente, querida Anitta, com a crise do capitalismo não foi a esquerda que ascendeu ao poder político, mas, sim, a extrema direita. Esta última se inspirou no nazi-fascismo europeu que provocou as Duas Grandes Guerras Mundiais com as quais o período da globalização liberal do século XIX terminou.

3. O FUTURO

Analisamos aqui o presente e o passado. Vamos falar agora do futuro. Só podemos imaginar um futuro se tivermos compreendido os enigmas que o presente e o passado colocam diante de nós. Na minha opinião, o grande desafio da humanidade hoje é como passar por mais uma transição hegemônica sem mais uma grande guerra mundial. Seria a terceira e última.

O Ocidente por cerca de quinhentos anos praticamente dominou o mundo todo com suas concepções de felicidade e de progresso. Não foi sempre assim. Antes da Era dos Descobrimentos, que começou por volta de 1500, a China e a Índia detinham a hegemonia econômica e militar. O mundo muçulmano, unificado pelo Império Otomano, também exercia grande poder, chegando a tomar Constantinopla em 1453, encerrando o período de mil anos que o Império Romano do Oriente ou Bizantino durou a mais do que Roma. E foi graças aos muçulmanos que a Europa pôde sair de seu isolamento medieval, pois foram eles que guardaram os tesouros da Grécia Antiga, rejeitados pela Igreja durante a Idade Média. Foi a partir do reencontro dos europeus, pelas mãos dos muçulmanos, com a cultura grega antiga que o Renascimento se tornou possível.

Depois dos quinhentos anos de domínio ocidental, assistimos hoje à ascensão da China e da Índia, beneficiadas pelo processo de globalização conduzido pelo Ocidente capitalista como estratégia para a derrubada do comunismo e da União Soviética em 1991. O efeito colateral dessa estratégia foi o surgimento de uma massa de trabalhadores ocidentais que perderam seus postos de trabalho e se viram obrigados a aceitar relações de trabalho precarizadas. Essa massa, ressentida com o capitalismo e não identificada com as propostas políticas dos partidos de esquerda, acabou sendo capturada pelo ideário de extrema direita de inspiração nazi-fascista.

O capitalismo tem horror à autocrítica e aprendeu a tapar seus buracos encontrando bodes expiatórios para desviar a atenção. Para o capitalismo, seus aspectos positivos são por conta de suas qualidades, porém, seus defeitos e inconsistências são sempre por culpa dos outros. Assim, negros, judeus, muçulmanos, drogas, imigrantes, gays e, agora, chineses, são sempre os culpados. O capitalismo é bom, o que estraga são os outros.

O que fazer, então?

Bem, precisamos observar alguns exemplos inovadores e aprender com a experimentação social. O modo de vida ocidental já vinha se tornando disfuncional. As grandes cidades, que inicialmente foram planejadas para o encontro e o convívio social, passaram a ser desenhadas para os automóveis e se tornaram um terreno hostil ao pedestre. A telemática (computadores + automação + Internet) está revolucionando a forma como trabalhamos, moramos, nos divertimos, amamos e guerreamos. Podemos nos salvar ou nos destruir por aí.

Precisamos pensar um programa político de fácil compreensão, que possa formar uma base política consistente e que esteja à altura dos enormes desafios que temos pela frente. Para mim, Anitta, a palavra chave para isto é ecossocialismo. Diria, então, que um programa político ecossocialista pode ser resumido em três pontos que criticam e buscam soluções para os três pilares arruinados da civilização ocidental: a sociedade industrial, o estado nacional e a democracia representativa.

O nome todo é longo: sociedade industrial produtora de mercadorias baseada na queima de combustíveis fósseis. É esse o modelo socioeconômico que urge repensar. Precisamos nos organizar mais localmente, sem tantos deslocamentos. As cidades poderiam ser reconvertidas do modo ruas para automóveis para o modo espaço para o pedestre, para o convívio e para a integração com a natureza. As florestas precisam ser preservadas e recuperadas, os rios e os mares, limpos, a biodiversidade precisa ser restaurada. Imagine em quanta coisa a mão de obra hoje ociosa poderia ser empregada.

Nosso Estado e cidade, o Rio, por exemplo. O nome já diz sobre sua vocação. Rio, água, montanhas, nascentes, mar... Poderíamos fazer da despoluição da Baia de Guanabara, antigamente um berçário de golfinhos e de baleias, – e não estão os golfinhos no emblema da cidade do Rio? –, uma grande obra estruturante que envolveria o Estado inteiro. O potencial do Rio, está na água. Ecovilas, ecobairros e ecocidades são ideias interessantes que se enquadram no conceito mais amplo de Cidades em Transição. Esse tipo de abordagem para o desenvolvimento urbano leva em conta o meio ambiente e traça estratégias para a organização local do trabalho. Seria uma forma de romper com a segregação socioambiental a que está submetida as populações mais pobres.

A quarta revolução industrial traz a inteligência artificial unida ao sistema 5G. Este multiplica várias vezes a velocidade da rede e possibilita o que se está chamando de internet das coisas. Juntos, podem ser a solução para os nossos problemas de mobilidade urbana, para a difusão do conhecimento e para a eficiência dos serviços de saúde e de segurança. Talvez, agora, com todos esses recursos disponíveis, a disputa entre economia planificada e mão invisível do mercado tenda novamente para o lado da primeira.

Quanto ao Estado Nacional, seu aparecimento na História, sucedendo organizações políticas como as tribos, os reinos e os impérios, cumpriu um papel civilizatório fundamental. Porém, nos últimos duzentos anos, com a as três sucessivas ondas de globalização (descobrimentos, imperialismo europeu liberal do século XIX e globalização neoliberal), a ideia de Estado Nacional começou a se tornar disfuncional à medida que muitos problemas começaram a existir em escala global em campos diversos como finanças, meio ambiente, migrações e pandemias, sem falar das guerras, do crime organizado, da corrupção política, dos genocídios e das perseguições políticas e religiosas. Tudo isso só tem solução a partir de acordos globais.

Evoluímos enormemente no que diz respeito à ciência e a técnica, porém não obtivemos o mesmo sucesso com a natureza humana. Suspeito que, se não conseguirmos fortalecer os laços entre os povos e nações, estaremos inviabilizando o futuro da humanidade.

E, volto a repetir, a bandeira política mais importante da atualidade é transição hegemônica sem guerra. Vamos aprender com o passado!

Por fim, a democracia representativa. Deixei o mais difícil por último. Assim como a sociedade industrial e o Estado Nacional, a democracia representativa também contribuiu para os avanços do modo de vida ocidental. Funcionou relativamente bem, com altos e baixos e discrepâncias regionais. Até que surgiram a internet e as redes sociais. Não que antes fosse uma maravilha, pois as redes de rádio e TV faziam muitas vezes a mediação entre fatos e versões de forma distorcida e pendendo sempre para o lado da direita. Mas com as redes sociais subverteu-se toda uma hierarquia na produção e distribuição de fatos e versões. Robôs e algoritmos passaram a ser vetores de verdadeiras epidemias psíquicas. Os países que controlam e limitam o conteúdo das redes sociais, Rússia e China, por exemplo, passaram a se vacinar contra essas epidemias e começaram a estimular a circulação do vírus da desinformação nas redes de seus adversários, rivais e inimigos.

O cenário geopolítico mundial se alterou com o fim da aliança entre os EUA e a China e o começo da nova aliança firmada entre esta última e a Rússia. A China e a Rússia adotaram modelos políticos mais rígidos. No caso da Rússia, uma democracia iliberal. No caso da China, uma república com sistema de partido único. As eleições na China se dão a nível local e regional. No nível nacional, as decisões são tomadas por colegiados tirados dos quadros do Partido Comunista. De um ou de outro modo, Rússia e China parecem colher vantagens no momento por não adotarem o modelo de democracia representativa liberal praticada pelo Ocidente. Com governos mais centralizados, porém, mais estáveis, podem traçar estratégias de longo prazo livres da instabilidade causada pelas disputas intestinas que ocorrem nas democracias representativas nestes novos tempos de redes sociais sem responsabilidades definidas sobre o uso de algoritmos, robôs e notícias falsas.

A democracia americana, por exemplo, Anitta, é um show de falsidade e disfuncionalidade. Acredito que o modelo político chinês deva ser compreendido e que alguma coisa daquilo ali possa ser aplicada em harmonia, palavra que os chineses gostam, com os princípios democráticos que vêm lá da Grécia Antiga. Acho que deveríamos criar um sistema que mesclasse mérito, competência e idoneidade com capacidade de convencimento e argumentação.

Pensando bem, Anitta, isto já existe e tem um nome. Chama-se república. Coisa pública em latim. O partido único no caso é a república, que consiste em três coisas. Primeiro, na separação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Segundo, na separação entre as esferas do Estado, do governo e do partido. E, terceiro, na observância de valores éticos como impessoalidade, improbidade, publicidade, transparência e competência. Tem que ser assim. E se tem que ser assim, no fundo vivemos todos numa ditadura republicana de partido único. Dentro desse partido único existem várias tendências: direita, esquerda, centro, ambientalistas, conservadores, progressistas, vale tudo, menos não ser republicano.

Temos, portanto, que retornar aos valores republicanos, os quais custaram muito sangue, suor e bravura de nossos ancestrais.

As políticas de Estado, aquelas que devem ser perenes e imunes ao troca-troca político, como relações exteriores, ciência, educação e saúde, requerem funcionários públicos bem treinados e capacitados para exercerem funções de Estado, imunes às interferências políticas de viés sectário. As grandes políticas nacionais têm cada uma delas seus fóruns de deliberação por vias limpas e transparentes.

Quanto à busca da síntese entre capitalismo e comunismo, que já havia ocorrido na Europa sob a forma da socialdemocracia, poderíamos seguir a China no que diz respeito à ideia de um país, dois sistemas. Se a China partiu de uma base comunista para aceitar experiências capitalistas como a livre iniciativa, o lucro e a propriedade privada, poderíamos fazer o mesmo, só que ao contrário. De uma base capitalista poderíamos promover experiências comunistas para quem estivesse interessado nesse outro modo de vida.

Para terminar, querida Anitta, sugiro que nos informemos sobre a vida de Confúcio, sábio chinês que viveu na Era Axial da qual falei no início de nossa conversa. Já lá pelos idos de 600 anos antes de Cristo, ele tinha conselhos para se evitar a desigualdade social e para se construir uma sociedade harmoniosa. A solução para esse desafio passa pela forma de recrutamento dos mais aptos a governar. Isto deveria se dar não pelo voto, mas, principalmente, pela observação do desempenho e do mérito de cada candidato a líder a partir de exames para a seleção do funcionalismo público. É mais ou menos a mesma coisa que Platão propôs em sua República. Nela, os objetivos centrais da vida em comunidade seriam o culto (religioso ou filosófico), o esporte e a festa. E de festa você entende! Platão fecha aqui com os tupinambás, nossos ancestrais cariocas. Mas isto é papo para outro dia.

Um grande abraço!

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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