21/10/2018

Uma visão espiritual das coisas

Dib Curi Dib Curi
"Nada do que vivemos está isolado ou fora dos trilhos, mas relacionado com o infinito de tudo."

Peço permissão aos leitores para não falar diretamente de política neste texto. O leitor encontrará, neste número do jornal, outros autores que falarão de maneira direta ou indireta deste assunto. Eu próprio tenho falado muito disto em meus perfis do Facebook. Gostaria de, neste texto, relaxar um pouco deste momento conturbado pelo qual passa o Brasil. Caso o leitor queira saber de meu posicionamento político, solicito o favor de se tornar meu amigo no Facebook. Mesmo assim, no final deste texto, inicio uma nova abordagem sobre o momento político e coletivo, a qual concluirei em um texto posterior, trazendo alguns operadores conceituais importantes para interpretarmos a nossa realidade atual.

Bom, como vocês sabem, sou professor de Filosofia. Desde menino trago em mim uma curiosidade imensa pelo saber, o que consumiu todos os meus dias, incansavelmente. Desde cedo, sempre que me parecia descobrir uma verdade, já me punha a caminho para compreender a sua face oposta ou aprofundá-la. E assim continuei. As verdades jamais atenuaram a minha paixão pela aventura que é o próprio conhecimento.

Após mais de 40 anos de estudos constantes e diálogos impertinentes com as grandes filosofias e religiões, devo dizer que se consolidou em mim uma visão espiritual. É verdade que sofri, muitas vezes, retrocessos pragmáticos, políticos, céticos ou críticos. Me apaixonei pelo pensamento de materialistas ou ateus, como Epicuro, Lucrécio, Montaigne, Nietzsche, Sartre, Foucault ou Deleuze. Vivi momentos de desesperança, medo e dúvida que me fizeram duvidar da espiritualidade e até da humanidade. Vivi também outros ciclos mais estéticos, tentando preencher a minha vida com intensidades, paixões, sentimentos, sensibilidade e Arte.

Mas creio que me transformei em um pensador do Espiritual. Na verdade, acredito que o Espiritual é algo que nos une a todos, é como o cimento ou a cola que transforma o mundo em uma coisa só, espaço e tempo interligados, matéria e memória, causas e consequências.

Desta forma, creio que nada do que vivemos está isolado ou fora dos trilhos, mas relacionado com o infinito de tudo. Em minha visão, o Espiritual se manisfesta em nós, principalmente, como um grande poder criativo. Sendo assim, cada pessoa vive e sente exatamente aquilo que ela mesmo cria, através de tudo o que ela pensa e acredita: seus desejos e medos, principalmente.

Neste sentido, a verdade acaba sendo aquilo que convem à cada um e aquilo que ele atrai para sí. Não há nada nem ninguém que não esteja mergulhado na consequência de seus próprios atos e pensamentos, tanto no plano pessoal como no plano social. À partir da crença e do desejo pessoal e coletivo, a vontade se liga a um universo de interesses, uma espécie de abóboda de experiências.

Embora esta visão possa parecer fatalista, não se trata disto, mas de conhecimento. A liberdade humana tem o poder de criar cenários que não aquele da bem aventurança e da harmonia que estão por traz das coisas. No fim das contas, a liberdade do ser humano pode afastá-lo do encadeamento “natural” do Espírito e do Ser.

A libertação destes labirintos não pode ser coletiva, porque não podemos libertar quem não queira ser libertado. E por falar em Liberdade, a espiritualidade também se manifesta em nós através do Amor. O início e o fim da libertação é afirmar o Amor que já existe em nós.

No meu caso, quero tornar-me incapaz de julgamento. Reconhecer cada semelhante no espelho perfeito de sua própria espiritualidade, além de opiniões, reatividades e, principalmente, além da casca que ele mesmo criou para si, acreditando se defender do mundo ou atacá-lo.

Platão e o nosso momento político

Baseado nesta tese de que atraímos para nós o que acreditamos e que as coisas funcionam exteriormente assim como interiormente, gostaria de citar o grande Platão. Considero este filósofo umas das bases da nossa visão espiritual, o elo perdido da civilização, o homem que nos liga à história antiga da humanidade, mas com uma linguagem que já é a nossa.

Foi Platão que primeiro sistematizou a divisão do mundo em dois; o mundo imperfeito da mudança e o mundo superior e perfeito da estabilidade ou eternidade.

Foi ele que dividiu a alma humana em três tendências, ou seja: O Racional (Logóico), o Concupscente (Epitímico) e o Irascível (Timóico). É no equilíbrio destas três tendências que acontece a nossa vida e a história da humanidade. Mas aí é assunto para o próximo texto.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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