21/11/2017

Protestantismo: contradições e utopias

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Protestar é um ingrediente humano por excelência – que é impossível de ser contido por qualquer instituição que seja. E só há impulso para o protesto quando ocorre, ao mesmo tempo, insatisfação com o atual estado de coisas e fé na transformação dele. &"

As Reformas - a de Lutero e as tantas outras – colaboraram na construção do ser “moderno”, do “ocidental” e, principalmente, do ser “cristão”.

A “Carta à Nobreza Alemã” demarcou as rupturas que houve em relação a Roma. As 95 teses preconizaram uma forma nova de experimentar a espiritualidade – intrincada com a filosofia humanista, com a arte renascentista, com a ética capitalista, com a política dos estados nacionais e com a espiritualidade leiga. A Reforma é, ao mesmo tempo, causa e consequência da Modernidade.

Foi Weber, em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que mostrou que com o advento do protestantismo, a cultura católica sofreu uma profunda transformação. Para o protestante, o trabalho enobrece, pois é parte de uma rotina que afasta do pecado. Se o católico trabalhava para viver, o protestante vivia para trabalhar.

Obviamente, o modo de vida baseado na fé protestante contribuiu para o acúmulo de capitais e as exclusões decorrentes dessa visão egocêntrica. Mas inspirou no indivíduo o sentimento de quem se enxerga como capaz de gerir sua própria vida. É a permanente tensão entre egoísmo e autonomia.

Há outros fatores para a compreensão da Reforma:

a) o “sacerdócio universal de todos os cristãos” – que relativiza o lugar dos sacerdotes e o poder da igreja;

b) a escritura como uma única fonte formal da doutrina – o que fragiliza o espaço da igreja institucional;

c) a fé como único meio de adesão à obra realizada por Deus – que concedia autonomia ao indivíduo (que passava a ser visto como alguém com comunhão direta com Deus, sem as intermediações de uma instituição); e

d) a graça de Deus que, sem qualquer merecimento humano, age em benefício da pessoa.

Em certo sentido, a graça relativiza as anteriores. O cristão protestante tem sua espiritualidade calcada numa visão livre l – um Deus que ama por graciosidade e amorosidade. Se é verdade que a doutrina da graça precisa ser lida ao lado do conceito de justiça (para não se cair na irresponsabilidade), é verdade também que faz com que se rompa com o ciclo opressor das relações de causa e consequência. Pela lógica da graça, a vida e a liberdade humana ganham autonomia.

Por isso, talvez, o próprio protestantismo se afastou, com interno, dessa tese germinal. A instituição não suporta a dinâmica da liberdade.

Na gênese do protestantismo, está uma visão de Deus profundamente revolucionária – pautada pela graciosidade. E essa teologia muda radicalmente a antropologia. O ser humano passa a ser considerado sob a lógica da liberdade. Deus e o ser humano se encontram e se experimentam mutuamente na livre comunhão. Nessa forma de ver as coisas, habita potencialmente a principal característica da modernidade: o individualismo, com suas contradições e seus desdobramentos políticos (democracia), econômicos (liberalismo, socialismo), jurídicos (estado de direito), sociais (educação, cultura etc) e psicológicos (egoísmo, autoconfiança).

Os protestantes foram assim denominados em razão do protesto de Lutero perante a instituição romana. Há, todavia, mais que isso em pauta: protestar é um ingrediente humano por excelência – que é impossível de ser contido por qualquer instituição que seja. E só há impulso para o protesto quando ocorre, ao mesmo tempo, insatisfação com o atual estado de coisas e fé na transformação dele.

Por isso, hoje, os protestantes não estão necessária ou exclusivamente nas igrejas protestantes (que não podem ser confundidas com determinadas expressões institucionais do cenário evangélico brasileiro), mas em todos os cantos onde há gente reclamando por uma sociedade de solidariedade e justiça social – mesmo que sem o colorido próprio da fé religiosa.

Do mesmo modo que as instituições religiosas têm se esforçado por matar as sementes do protesto, é fato também que há protestantes entre crentes, agnósticos e ateus. E isso é muito bom. Afinal, a vida exige uma fé genuinamente protestante: que saiba, ao mesmo tempo, promover a denúncia e alimentar a utopia.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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