18/06/2017

Riqueza e Poder

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Segue a trilha de investigadores, como a do saudoso René Dreifuss, que mostra como a riqueza está associada a posições políticas ."

“Eu conheci uma figura indispensável à decifração dos segredos do jogo do poder no Brasil: o empreiteiro.” Wainer, Samuel – Minha Razão de Viver: Memórias de um Repórter, 10ª Ed. Rio de Janeiro, Record. 1987

Se ficarmos limitados à aparência fatual, nunca compreenderemos as forças, as razões da história e jamais poderemos atuar sobre a realidade, o que se chama política. Recentemente ficamos admirados com as volumosas quantias de capital envolvidas no pagamento de propinas e de sonegação de impostos. São bilhões que vão para as contas pessoais, e que não sei por que não são devolvidos na mesma proporção, por exemplo, ao setor público, o que contrasta com o estado de falência de vários municípios e da saúde pública.

Só a luz, que desvenda o mistério da criação, da apropriação e aplicação destas relevantes cifras pode nos trazer a clareza necessária para a construção de uma nova realidade. Só ela rompe com a falta de transparência dos processos econômicos, e nos confere um novo instrumental analítico. Por isto, vejo com muita alegria e esperança a publicação de dois livros: “Estranhas Catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar. 1964-1988“- Eduff. (Editora da Universidade Federal Fluminense, tese de doutorado de Pedro Henrique Pedreira Campos, que recebeu o prêmio Jabuti de melhor livro do ano em 2015 no campo da economia e administração, e que foi reimpresso em 2017.

O segundo livro, recém lançado, “Os Donos do Capital: a trajetória das principais famílias empresariais do capitalismo brasileiro”, organizado por Pedro Campos e Rafael Brandão, focaliza trajetórias como as do Barão de Mauá. a família Guinle, a Johannpeter-Gerdau, a Simonsen, a Klabin-Lafer, a Marinho, a Sarney, a de Valentin Bouças (representante de empresas estrangeiras, como IBM, no Brasil); algumas famílias de empreiteiros como os Odebrecht, os Camargos e os Andrade; algumas de banqueiros como Vilela, Setúbal e Moreira Salles.

Ambos os livros foram prestigiados pela Livraria Ecoarte, em São Pedro da Serra. O primeiro teve ali um lançamento em abril de 2017, e o segundo tem lançamento programado para o dia 3 de junho, às 18 horas. Dessa forma, o Espaço Ecoarte se mostra antenado com os caminhos da pesquisa no Brasil, contribuindo decisivamente para encontrar um caminho e construir uma nova era, em confronto com as forças tenebrosas que, especialmente após o golpe de Temer, vêm assolando o País.

Estas obras colocam claramente a questão da acumulação de capital no Brasil, revelando a ligação destas empresas com o setor público e com o setor financeiro. Segue a trilha de investigadores, como a do saudoso René Dreifuss, que mostra como a riqueza está associada a posições políticas e presença no aparelho de Estado daí a sua interferência no jogo político-eleitoral, dele fazendo um instrumento direto do capital, excluindo as massas do poder. Também se pode indagar a associação com o capital estrangeiro. Se no passado havia um apelo ao povo para sua participação na luta nacionalista que deu origem, por exemplo, à Petrobras (“o petróleo é nosso”), hoje a defesa de terras, setores produtivos e o consumo parecem inteiramente afastados. A campanha anti-estado não só reduz obras como ferrovias, viadutos, pontes, portos, como ameaçam a integração nacional. O Clube de Engenharia manifestou recente apreensão com a descaracterização da Petrobras como petroleira integrada, através da venda de ativos importantes e do abandono de investimentos em exploração, em refino de petróleo e em petroquímica, de modo a torná-la mera produtora de petróleo bruto, o que já tem reflexo devastador na nossa engenharia.

O Clube de Engenharia ficou alarmado com o retrocesso na atuação do BNDES, seja no volume dos recursos a ele alocado, seja nas políticas operacionais. Citou também a transferência à iniciativa privada do monitoramento de atividades na Amazônia que, há mais de três décadas vem sendo executado pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisa Espacial. Também chocou a extinção da RENCA (Reserva Nacional do Cobre), área estratégica preservada nos Estados do Pará e do Amapá, para entregá-la a grupos estrangeiros; a transferência, à iniciativa privada, dos canais digitais do primeiro satélite geoestacionário do Brasil, recém lançado ao espaço; e outras medidas, que, pela subordinação aos Estados Unidos da América, tornam ”mais difícil a inserção da engenharia nacional nos mercados externos”.

Uma coisa é certa: a metodologia de exame com base em “quem é quem” na economia e na política, como, aliás, foi feito pelo Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro da Fundação Getúlio Vargas é muito importante para compreender o movimento histórico e o eixo de novas forças, que rompendo o modelo herdado da ditadura criem o arco de alianças essencial para sair desta crise e desta ditadura disfarçada. Toda esta crise resulta justamente de um regime elitista e pouco democrático. Ela não será resolvida com soluções mais autoritárias. Terá um desfecho melhor na medida em que houver uma verdadeira participação popular, em todos os níveis, a começar pelas organizações e entidades presentes nos distritos.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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