18/06/2017

Diretas já

Frei Betto Frei Betto
"O Brasil está nu. E desmoralizado. E os dois poderes republicanos, o Legislativo e o Executivo, dependurados no Poder Judiciário. Este preside de fato o país."

É difícil algum novo escândalo de corrupção, nepotismo e tráfico de influência surpreender quem acompanha de perto a política brasileira. O tecido da nossa institucionalidade política esgarçou, carcomido pela podridão. Os eleitores votam, o poder econômico elege e, lá em cima, os eleitos se entendem, se congratulam, se recompensam, e com certeza riem da nossa cara.

Nem por isso devemos descrer na democracia, desde que haja disposição de botar abaixo a plutocracia. A Lava Jato é, nesse sentido, uma iniciativa positiva, malgrado seu risco de também cair na tentação de fazer jogadas partidárias.

O Brasil está nu. E desmoralizado. E os dois poderes republicanos, o Legislativo e o Executivo, dependurados no Poder Judiciário. Este preside de fato o país. Contudo, o Brasil merece retomar o curso normal do processo democrático e, para isso, o Congresso deveria calçar as sandálias da humildade e aprovar, agora, eleições diretas para a presidência da República.

Qualquer outra solução é tentar costurar remendo novo em pano velho. Manter Temer é ver o país em queda livre, inclusive pelas denúncias que ainda emergirão.

Uma eleição indireta teria que buscar um candidato acima de qualquer suspeita. E o Congresso certamente não haverá de eleger quem, amanhã, possa desalojar do aparelho do Estado os suspeitos de corrupção e os indicados por eles.

Se queremos resgatar a democracia é melhor correr o risco com o povo do que pretender solucionar a crise sem ele.

O país do Espelho

Depois de visitar o País das Maravilhas, Alice, personagem de Lewis Carroll, decidiu atravessar o espelho de sua casa. Assim, entrou no País do Espelho, onde viu tudo ao contrário do que realmente é.

Se vivesse hoje no Brasil, bastaria Alice sair à rua para ver a realidade invertida: o bem comum ignorado pela maioria dos políticos; a propina superior ao salário; a mentira a tentar encobrir a verdade; a safadeza a predominar sobre a ética; e a venalidade sobre a honestidade.

Veria vários Brasis. E dois em destaque: o da maioria, que trabalha arduamente para ganhar por mês menos de dois salários mínimos, e quando doente sofre ainda mais por não contar com a eficiência do SUS e nem poder pagar o preço abusivo de remédios e planos de saúde.

E o Brasil dos que subornam instituições, juízes, deputados, senadores e governadores, para facilitar seus negócios e engordar os lucros. O Brasil dos que mamam nas tetas do Estado.

É tamanha a fila dos que têm rabo preso que todos eles devem estar se perguntando: “Quando chegará a minha vez?”

O presidente Temer recebeu no porão do Palácio Jaburu, no dia 7 de março, um bandido que se chama Joesley Batista, mas ingressou na residência oficial sob a alcunha de “Rodrigo”. Ali ele descreveu descaradamente, à máxima autoridade do país, as falcatruas nas quais andava metido. Recebeu do presidente estímulo para continuá-las.

Não me surpreende se, naquela noite, ao colocar para dormir o pequeno Michel, Temer tenha lido para o filho Alice no país do espelho e gravado na memória este trecho, no qual acreditou ao receber o homem que diz ter corrompido 1829 políticos: “Acho que não podem me escutar... e tenho quase certeza de que não podem me ver. Alguma coisa me diz que estou invisível...”

O rei está nu! E, apesar de seus dois pronunciamentos, não conseguirá ingressar no espelho e ver a sua real situação invertida.

Por: Frei Betto

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de “Mística e espiritualidade” (Vozes), entre outros livros.

VOLTAR À PÁGINA INICIAL