18/06/2017

Sem vergonha nem culpa

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"O pior inimigo é aquele que perdeu a vergonha."

O Brasil, assaltado por uma onda impressionante de corrupção, toma aos poucos consciência de que esse modo de operar a democracia prevaleceu durante os últimos trinta anos e ocupa grande parte do espectro político.

A corrupção foi a ideia que serviu de amálgama para reunir as forças políticas tão diferentes que formaram a maioria parlamentar nos últimos anos. De ruralistas a sindicalistas, de liberais a comunistas, de conservadores a progressistas. Só mesmo a força do dinheiro para reunir num mesmo barco elementos tão dispares.

E por trás de tudo isso, as empreiteiras, que sonham com um mercado de trabalho com menos garantias e uma seguridade social menos generosa para os trabalhadores, mas que atuam para privatizar em vista aos seus próprios interesses o orçamento da união e o Congresso Nacional.

É certo que, nos últimos anos, houve, para isso, a forte contribuição da chamada maldição do petróleo. Isto acontece quando uma grande e súbita entrada de dinheiro ocorre em um país por conta do boom de algum recurso. Com muito dinheiro em caixa, o governo faz um enorme programa de gastos e distribui benesses generalizadas. Ele torna-se popular por um tempo, mas deixa um rastro de corrupção e ineficiência. A Venezuela, hoje, é o grande exemplo.

Para compreendermos a tragédia moral que se abateu sobre o Brasil, precisamos refletir sobre os mecanismos que nos faz cooperar socialmente e impedir que atuemos de forma anti-social. Precisamos falar sobre a vergonha e a culpa.

Durante muitos milhares de anos, nossa espécie viveu em bandos e tribos. Os sistemas de troca se baseavam em sistemas de parentesco muito variados e as trocas se davam de acordo com um sistema de reciprocidade.

O sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) estudou os hábitos dos bandos e tribos contemporâneas em locais como Alaska, Austrália e Nova Zelândia, e percebeu que as trocas econômicas se davam dentro do contexto do que chamou de “fato social total”, que, nas palavras do também antropólogo Claude Levy-Strauss (1908-2009), é “dotado de significação simultaneamente social e religiosa, mágica e econômica, utilitária e sentimental, jurídica e moral”.

Nesse mundo pré-civilizado e pré-moderno, passamos centenas de milhares de anos. As civilizações datam de apenas seis mil anos e os direitos civis dos estados modernos têm entre um e dois séculos. O sistema de livre mercado capitalista tem pouquíssimo tempo se comparado com as centenas de milhares de anos que durou a pré-história. No bando e na tribo, é o sentimento de vergonha que impede os comportamentos antissociais. Não cometo um delito, não porque tenho medo de ser descoberto, mas porque não terei como olhar nos olhos dos membros do meu grupo, pois terei vergonha.

Com o advento das civilizações, já não se poderia conhecer todos os membros do grupo cara a cara. Intensifica-se então a produção e difusão dos mitos, potencializada agora pela existência de castas de escribas, sacerdotes e burocratas que administram a escrita.

Na mitologia grega, por exemplo, podemos encontrar várias passagens que descrevem os conflitos morais envolvidos na transição da psicologia da vergonha para a psicologia da culpa.

Com as civilizações e suas religiões começamos a falar de um Deus que tudo vê e que pune o pecador. Os ritos apropriados poderão fazer com que os sacerdotes auxiliem o pecador a se reconciliar com os princípios morais prescritos pela divindade.

Depois, foram as leis dos países que incorporaram as verdades e instituíram as correções e punições necessárias para que a sociedade não degenerasse em pura barbárie.

Tanto a religião quanto a constituição de um estado democrático operam através da culpa. Se ninguém viu, nem Deus nem o juiz, tudo bem, você pode continuar encarando sem problemas seus semelhantes. A partir daí, fomos pródigos em construir máscaras sociais totalmente dissociadas do sentido de nossas vidas privadas.

É por isso que tantos são capazes de mentir tão descaradamente. O pior inimigo é aquele que perdeu a vergonha.

No fundo, temos uma imensa nostalgia do “fato social total” e, inconscientemente, tentamos retornar a ele. No fetiche da mercadoria, por exemplo, procuramos reunir novamente, porém sem nunca conseguir, o social e o religioso, o mágico e o econômico, o utilitário e o sentimental, o jurídico e o moral.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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