18/06/2017

Uma realidade além da esperança e do medo

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Parece que o homem ao observar a natureza optou por se limitar ao seu movimento ao invés de ver que ele é capaz de ir muito além dela. Na verdade, ele preferiu dominá-la a transcendê-la. "

Todas as sociedades e culturas foram criadas e são mantidas a partir do perverso jogo dualista da esperança e do medo.

Ao longo de toda a nossa existência temos visto o mundo através destas duas lentes e não conseguimos ver nada além. Sem uma outra perspectiva não conseguimos enxergar como esta visão do mundo produz todos os nossos sofrimentos. Isto nos é tão “natural” que não vemos outro jeito de ser.

Quando observamos a natureza vemos que ela se movimenta e “evolui” desta forma. A esperança e o medo na natureza estão relacionados aos instintos de sobrevivência física. Mas para nós humanos, além da sobrevivência física a esperança e o medo estão relacionados à sobrevivência psicológica, o que as tornam mais complicadas. Parece que o homem ao observar a natureza optou por se limitar ao seu movimento ao invés de ver que ele é capaz de ir muito além dela. Na verdade, ele preferiu dominá-la a transcendê-la.

A história humana tem sido uma história de busca de poder. Poder sobre a natureza, sobre seus semelhantes, sobre as idéias, sobre a morte e tudo o mais que ameace nosso senso de existência. E por trás disso tudo estão nossas esperanças e nossos medos. Não pensemos que esta situação aconteceu há muito tempo atrás, na verdade ele está acontecendo agora, neste exato momento com você.

Você já se imaginou vivendo sem esperanças e medos. Talvez você já tenha pensado como seria maravilhoso viver sem medos. Na verdade, estamos o tempo todo querendo realizar isso. Viver com mais segurança, mais relaxados, tranqüilos e em paz. Realmente o que mais desejamos é viver sem medo, mas imaginar viver sem esperanças pode parecer meio esquisito, como se estivéssemos quase mortos.

Mas, se refletirmos um pouco, veremos que não há esperança sem medo e que se quisermos viver sem medos teremos que abrir mão de nossas esperanças o que pode não ser muito fácil. Para entendermos melhor o porque fazer isso precisamos investigar como criamos nossas esperanças e precisamos refletir sobre o enorme custo que tudo isso nos causa e ver o quanto é pouco inteligente e quase insano viver desta forma.

Por que temos esperanças?

A esperança está no futuro, em algo que está por vir. Imaginamos algo que nos parece ser melhor do que o que temos no presente e este algo melhor nos estimula, nos alegra ou nos conforta, pois se o presente não está muito bom ele pode melhorar e se está bom pode se tornar melhor ainda. Isso não nos parece nada insano. O que estamos querendo é melhorar nossas condições de vida, nos tornar pessoas melhores e tornar o mundo melhor.

Se avançarmos um pouco mais em nossa reflexão começaremos a ver uma pontinha de insanidade quando nos damos conta de que, ao termos esperanças de algo melhor no futuro, temos a “nossa” idéia de algo melhor. Neste ponto, podemos ver que esta é apenas a nossa idéia de algo melhor e que talvez ela possa não ser a melhor idéia sobre algo melhor. Mas podemos seguir em frente e pensar: “ninguém melhor que eu para ver o que é melhor para mim, o que quero ser, realizar, viver etc., pois é minha vida, já sou um adulto e não uma criança que é levada por esperanças tolas e fantasias etc.”. Esperemos que seja isso mesmo.

Então podemos avançar mais e nos perguntar: se tivéssemos nascido no Alaska ou numa tribo africana ou numa família talibã do Afeganistão teríamos esperanças bem diferentes? Sim, talvez tivéssemos esperanças de sobrevivência física mais comum, mas psicologicamente teríamos esperanças bem diferentes. Isso nos mostra que o que achamos o melhor é relativo. Relativo a nossa cultura, nossa educação e a todo o tipo de informação e experiência que temos acesso em nossa vida. Mesmo numa mesma cultura as pessoas têm esperanças e desejos diferentes. Nossas idéias do que é melhor não significam a única forma de se viver e ser feliz, mas quando temos esperanças estamos emocionalmente aprisionados a uma forma e a uma condição e isso tira nossa lucidez. Além disso, poderemos ver que mesmo que realizemos nossas esperanças, sempre irão surgir novas esperanças que sempre vem junto com uma produção de medos e insatisfações sem fim.

Ao funcionarmos desta maneira perdemos nossa lucidez nos tornamos limitados em nossa percepção da realidade e facilmente manipuláveis. Achamos que estamos no controle, mas, na verdade, nossas vontades, desejos e ações são apenas um encadeamento do jogo da insatisfação da mente comum. Nesta situação, há aqueles que já perceberam, em parte, como isto é cruel, mas ainda dominados sutilmente por este jogo, criam inúmeras formas de manipulação para conduzir o mundo ao que eles acham ser “o melhor” ou apenas para tirar algum proveito e satisfação. Seja como for, na melhor ou na pior das intenções, estas ações ainda estão baseadas no jogo equivocado da esperança e do medo.

Muitos atores da sociedade em suas posições de influência na comunicação, na educação, na religião, na política e nas ciências para citar apenas algumas áreas, trabalham constantemente na manutenção desta prisão onde as algemas da esperança e do medo nos iludem. Podemos achar que eles são os responsáveis por nosso sofrimento, mas, na verdade, eles agem também baseados no mesmo aprisionamento que infligem. Não importa se as algemas são de ferro ou de ouro todos estão presos pelas as algemas da esperança e do medo.

Portanto, não vale a pena ficar lutando com quem está tão preso como nós. Seria como pessoas numa prisão em que o portão da cela está aberto e que em vez de saírem, ficam brigando umas com as outras para conquistar um cantinho mais confortável dentro da cela e não percebem que o portão está aberto!

Se quisermos realmente nos libertar desta prisão teremos que desenvolver uma sabedoria que quebre este encanto que faz com que vejamos e conduzamos nossa vida baseada na esperança e no medo. De certa forma, isto significa aprender a relaxar e apreciar cada momento presente, seja ele de prazer ou de dor, para descobrir o espaço ilimitado e imperturbável que somos.

Ao pararmos de brigar por nossas esperanças e medos podemos começar a relaxar e a ver a realidade de outra forma, ver que o portão está aberto, que há uma realidade além da cela. E então, ao sairmos da cela, descobrimos toda a paz e liberdade que há no mundo. Mas, então, ao olharmos para traz e vermos todas aquelas pessoas ainda brigando por um cantinho mais confortável da cela, movidos por compaixão, podemos entrar de novo na cela para tentar mostrar para todos que o portão está aberto e que existe uma realidade além da esperança e do medo.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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