18/06/2017

Uma terceira maneira de vivermos em sociedade

Dib Curi Dib Curi
"Só um outro ser humano garantirá uma outra sociedade, onde o respeito à diversidade caminhará junto com a justiça e onde o afeto e a compreensão substituirão o ódio e o preconceito. "

Excluindo os exageros, existem três modelos ou maneiras principais de vivermos em sociedade: 1 - Os liberais ou capitalistas acreditam na preponderância do indivíduo ou do privado e nos isolam da comunidade. 2 - Os socialistas apostam no coletivo e no público e nos alienam da nossa interioridade e subjetividade. Estas duas ideologias se mostraram materialistas e mecanicistas, definindo o humano pelo trabalho e consumo, destruindo o nosso habitat comum e nos prendendo no labirinto da luta pelo poder e sobrevivência.

Contudo, sempre houve uma terceira proposta representada, basicamente, pela relação que os índios tem com a vida, mas também pelos primeiros cristãos, anarquistas, românticos, poetas, utópicos, hippies, movimento de maio de 68 e pelos alternativos, tanto naturalistas como espiritualistas. Infelizmente esta tendência - a mais fértil das três, pois baseada na diversidade cultural - foi cooptada economicamente pelo capitalismo e politicamente pelo socialismo, ambos monoculturais.

O realismo quase darwinista destas duas doutrinas nos alienou do nosso potencial afetivo e sem esta virtude não chegamos a ser humanos. Foi no final da década de 1980 que começamos a empobrecer definitivamente, quando os alternativos de todos os matizes fizeram escolhas simplórias entre direita e esquerda, onde um lado só reforça o outro na eterna luta de classes, que nos prende no desamor e no conflito. Isto acontece pela necessária natureza auto afirmativa da luta pelo poder que, independente da proposta defendida, inviabiliza o viés integrativo e humanitário que nos conduziria à uma nova civilização. As pessoas acreditam na luta pelo poder e investem suas esperanças neste modelo.

Será que mudaremos isto? Difícil sem mudar as pessoas. Mas a conversa da política (poder) é mudar o bolo sem mudar os ingredientes do bolo. Os ingredientes do bolo são as pessoas. Consideremos que a sociedade é a média dos desejos, interesses e vínculos estabelecidos pelos indivíduos. A pergunta é: Quais os valores mais apreciados pela maioria das pessoas? Pronto: esta é a sociedade. Quem gosta de matemática sabe o que é o Máximo Divisor Comum (MDC). Pois é!

Sobre a face negativa do poder o filósofo Michel Foucault disse que o poder é uma fábrica de mentes e determina o que pensamos e somos. Atualmente, o poder político, ao contrário do que aconselhava Platão, está a serviço da economia de mercado, que induz valores hedonistas, materialistas e competitivos, que as pessoas passam a reverenciar, formando cabeças, individualizando excessivamente as vontades, excitando desejos e alienando-nos da coletividade. Isto desconstrói a noção de política, cuja natureza é ser uma política de comunidades e não de indivíduos.

No fim das contas, compreendemos bem porque o filósofo Jean Paul Sartre disse que somos pessoas de má fé. Se alguém nos disser que a vida é fluxo, liberdade e criação, diremos que é utópico ou sonhador, pois a nossa realidade é justamente a negação destes valores, ou seja, nossa vida é pautada pela busca da estabilidade, da submissão à padrões fixos e repetição constante. Não criamos nada, só repetimos. Não inauguramos, só seguimos. Negamos a vida que deveria fluir em nós. Não somos fluxo, não somos livres e nem criativos. Triste sina de quem vive instalado em suas (des) confortáveis e esquizofrênicas verdades interesseiras.

Acreditamos realmente que a luta pelo poder vai nos levar a algum lugar, mas ela só nos levará a mais luta ainda. De tempos em tempos costumamos colher o ônus inevitável da luta que é a guerra. Assim caminha a humanidade.

Talvez Marx estivesse errado e os economistas liberais também. Não existirão vitoriosos na luta de classes. A vitória de um lado será sempre incerta e cheia de conflitos e injustiças, simples prelúdio para a revanche do outro lado. Tanto o capitalismo como o comunismo supõe o domínio e a ditadura de uns sobre os outros, através das tentativas de massificação e condenação de jeitos de ser e de pensar. Só um outro ser humano garantirá outra sociedade, onde o respeito à diversidade caminhará junto com a justiça e onde o afeto e a compreensão substituirão o ódio e o preconceito. Todavia, ainda permanecemos crédulos na tolice que é querer transformar os diferentes em iguais e os iguais em diferentes.

Não tenho dúvida de que um dos nossos grandes problemas é o medo que gera o apego à segurança e a estabilidade. Isto torna a mente limitada; reduto dos hábitos, rotinas, padrões e clichês. Todos os dias repetimos os mesmos comentários do dia anterior, vestidos em frases ou fatos distintos. Parecemos estar numa mata de Eucaliptos ou numa monocultura de soja. Sufocamos de mesmice. Onde estão os diferentes, a diversidade de ser e de pensar, a novidade, a criatividade e a compaixão? Coincidência nossas conversas serem idênticas às pautas da mídia?

A disputa política sempre existiu, o egoísmo e a canalhice sempre existiram. Será que isto é razão suficiente para este espetáculo obsessivo de negatividade competitiva engajada? Não digo para sermos alienados, mas será que só existem soluções de direita ou esquerda, com esta “evangelização” economicista obsessiva, parcial e moralista? E os potenciais cognitivos, afetivos e criativos das pessoas? Seremos sempre vaquinhas de presépio dos poderes?

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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