04/10/2016

Hora do povo: renovar prefeituras e vereanças

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Desliguemo-nos do modo eleitoral que se fundamenta em retratinhos expostos na televisão e façamos da campanha um momento de conscientização e encaminhamento de novas soluções: “agir localmente e pensar globalmente”. "

"Comer pelas beiradas o mingau”(ditado popular)

O Brasil não se livrou da corrupção endêmica. Ao contrário, por obra de um congresso que considero ilegítimo, estamos sob uma presidência ilegítima que passa os dias estudando como atochar e calar o cidadão. Não temos qualquer confiança no futuro. Ou melhor, nossa confiança está na mudança de quadros e valores.

Justamente o quadro atual nos fornece uma lição de como não fazer; de levar a política mais a sério do que se tem levado, sob pena de dificultar o ingresso numa nova realidade política que favoreça as conquistas democráticas e melhores qualidade de vida do brasileiro.

Ocupando um pequeno espaço da mídia, foi anunciado que a campanha eleitoral começou oficialmente em todo o país para a prefeitura e câmara de vereadores. A Justiça Eleitoral recebeu o pedido de registro de 238 mil candidatos a prefeito e a vereador em todo o Brasil. Estas eleições se dão num quadro de profunda mediocrização da vida nacional. Economicamente são inúmeras as empresas que estão fechando; o desemprego é brutal e os projetos oficiais intensificam a crise. As conseqüências são a maior concentração e dependência aos países ricos.

As ameaças da Previdência afetam os pobres e expressiva parcela dos que vivem em pequenos municípios. Os grandes partidos perderam qualquer vinculo popular, e estão comprometidos com a prática da privatização... Até para obter alguns recursos...

Enfim, o que melhor as eleições podem oferecer é uma perspectiva de reação a este estado de coisas. E o que melhor pode ocorrer é uma parceria entre a população e os eleitos: transparência da coisa pública e a emergência de uma nova frente popular. Muitos ficaram enojados com a vida política e simplesmente se negam a votar. O resultado: entregam as instituições ao domínio de quadrilhas, carreiristas e oportunistas. Cabe ao eleitor a tarefa de eleger gente com perfil responsável e negar-se ao jogo da compra de votos. Eleitor, olho vivo. Você decide.

O pensamento dominante e conservador elege temas administrativos como principais, como se tudo estivesse no caminho certo, requerendo apenas pequenos reparos, verdadeiros “band-aids”: ruas melhor calçadas, bueiros desentupidos, pequenas melhoras no trânsito automobilístico. Medidas necessárias em qualquer regime, porém insuficientes. .O regime, ah! Nisto não se mexe.

Como todos são afetados pela política nacional, dela não se deve desligar e deixar de reivindicar unidos formando esquemas fora da política tradicional.

Não esqueçamos que toda a vida no Brasil se dá numa época em que são necessárias soluções para o desastre ambiental. O Brasil é um dos países privilegiados quanto à água, porém com uma política hídrica, e comportamento social que têm gerado elevadíssimo percentual de poluição. Num contexto de aquecimento da terra é necessário observar o coletivo acesso a um bem público como água.

A floresta e a fauna (que infelizmente não têm representante), embora contenham tesouros insuspeitados continuam a ser devastadas. Consideremos a floresta, fonte de alimento, medicamento, madeira etc... ou como salientou Marques de Lavradio, vice-rei do Brasil, lá no século XVIII, de promover produtos capazes de curar doenças do mundo. Enfim, esta é a hora de pesquisar, processar e produzir bens alternativos provenientes da grande biodiversidade. Isto implica considerar áreas rurais e ambientais como parte do município, ainda que a cidade concentre maior população e renda e mais votos eleitoralmente. A questão ambiental se desdobra em outras: saneamento e lixo: fazer do lixo um fator renovador, fazendo com que a comunidade participe, separando o teor do lixo; saúde que deve adquirir uma dimensão preventiva, um acompanhamento constante do doente e recorrer aos agentes de saúde, ensinadores de questões básicas como higiene e alimentação. Maior atenção à nutrição, procurando aliar a produção local às escolas.

Muita atividade pode ser feita a nível local e deve ser estimulada esta iniciativa. Muitos aspectos podem ser evocados. Mas se vamos para uma campanha local, pensamos que as forças começam nas bases, nos municípios. Enfim, desliguemo-nos do modo eleitoral que se fundamenta em retratinhos expostos na televisão e façamos da campanha um momento de conscientização e encaminhamento de novas soluções: “agir localmente e pensar globalmente”.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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