21/08/2016

Agosto em tempos de resistência

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Estamos vivendo tempos difíceis que estão a exigir de nós esforços e muita solidariedade. Pensemos que não é hora de se retrair e sim de investir no futuro, renovando a política ambiental, cultural e de saúde."

“Deus me dê coragem para mudar o que posso; capacidade de aceitar o que não posso mudar e sabedoria para diferenciar uma coisa da outra”. (ditado popular)

A referência a agosto se refere aos festejos que aqui fazemos em relação à festa suíça de 1º de agosto, quando se comemora a união de cantões, de modo que é feriado em toda Suíça. Também em Nova Friburgo este dia é especial. Afinal somos os primos pobres, meio esquecidos da atual Suíça. A Casa Suíça de Nova Friburgo e a Associação Fribourg-NovaFriburgo criam uma série de comemorações a propósito que se realizam na primeira semana de agosto em Nova Friburgo.

São Pedro da Serra e Lumiar, onde se concentra o maior contingente de descendentes suíços de Nova Friburgo, continuam esquecidos, não obstante aqui estão os familiares de Marchon, Berbert, Overney, Tardin, Jaccoud e outros, sem mencionar os que descendem dos imigrantes alemães de 1824.

A origem destes colonos está na assinatura do acordo de D.João VI e o representante suíço Nicolau Sebastião Gachet em 1818, que foi a base textual da vinda dos colonos suíços, de onde resultou a fundação da Vila de São João Batista de Nova Friburgo em 1820.

Não obstante a lembrança oficial, omitem-se aspectos que marcaram a chamada “Colônia de Suíços”: a pobreza, a instrução limitada, o analfabetismo predominante, a precariedade hospitalar. Há inclusive um texto de 1831 atribuído ao. deputado provincial Padre José Antonio Lessa em que se diz que há apenas um professor nesta vila, o que ensejou a reflexão segundo a qual “a mocidade cresce na ignorância e estupidez e a sua futura felicidade é privada”.

Os colonos viveram subjugados pelo autoritarismo da Administração chefiada pelo inspetor da “Colonização Estrangeira”, Monsenhor Miranda. Embora ele procurasse impedir os colonos de abandonarem a Colônia, a diáspora foi grande. Um censo feito pelo padre Joye, em 1828, mostrou que na Paróquia de São Batista de Nova Friburgo (envolvia áreas que hoje pertencem a municípios limítrofes) havia 824 colonos imigrantes,( só contou os católicos, excluindo portanto os alemães) 791 brasileiros e 1272 escravos. Muitos colonos abandonaram as más terras que lhes foram concedidas na Fazenda Morro Queimado e foram para outras áreas como Cantagalo e o vale do Macaé. Uma comissão de colonos obteve de D. Pedro I terras nessa região. Não é em vão que a bandeira de Lumiar tem uma parte vermelha com a cruz branca suíça e a de São Pedro uma coroa, acompanhada de PI (Pedro Primeiro).

A Suíça dá pouca atenção em sua história à migração para Nova Friburgo. Em determinado livro de história da Suíça li a observação que a Suíça exportou sua pobreza para a região serrana. Este é o quarto ano em que focalizamos a colonização suíça, em sintonia com a Festa Nacional Suíça.

A Casa Suíça em Nova Friburgo promove uma série de eventos nesta data. E nós temos aproveitado esta época para que Lumiar e São Pedro realizem um mergulho histórico. Foram feitas atividades como palestras nas escolas, solicitação que os estudantes participem de várias formas; apresentamos filmes relativos à realidade imigratória, como faremos neste ano no dia 3 de agosto, às 19 horas, no Cassino Serrano em São Pedro da Serra, quando sob direção de Celso Bomfim serão apresentados “Suíços Brasileiros: uma história esquecida”, de Calixto Hackim e os curtas sob a direção de Celso Bonfim: “Os Suíços de Lumiar e São Pedro da Serra” e “Prosas”.

Neste ano estamos em tempos de resistência. Para começar, a rede estadual está em uma longa greve, embora haja escolas que funcionam parcialmente com aulas. O Governo do Estado do Rio de Janeiro chegou a decretar “estado de calamidade pública”, conceito que tem sido utilizado para atrasar pagamentos de servidores e de professores. Enfim, numa atmosfera triste e pesarosa, comungamos com a resistência – escolas que são ocupadas por alunos; colaborações diversas configuram o movimento. Eu mesmo fui ao IENf participar de uma Oficina e, no dia 28/7, participarei de outra quando farei alusão ao 1º agosto.

Estamos vivendo tempos difíceis que estão a exigir de nós esforços e muita solidariedade. Pensemos que não é hora de se retrair e sim de investir no futuro, renovando a política ambiental, cultural e de saúde. Estão a exigir esforços oficiais, como por exemplo, agilizar o espaço da fábrica Ypu e um apoio concreto vindo da Suíça, incrementando o intercâmbio no plano da política cultural. No ano passado, me dirigi pessoalmente ao Cônsul da Suíça no Rio de Janeiro. Ele me sugeriu que eu procurasse a Casa Suíça no Rio de Janeiro. Respondi e respondo que a região de Lumiar e São Pedro tem peculiaridades e projetos, que estão a exigir uma atenção particular e que a Casa Suíça, não obstante alguns auxílios ao longo de sua existência, muito pouco tem feito em favor de Lumiar e São Pedro da Serra.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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