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Lara de Lemos
1925 -

Lara de Lemos nasceu em Porto Alegre. Desde 1977 mudou-se para Nova Friburgo. Casou-se, teve 3 filhos e adotou um. Agora (2008), já bem idosa, mora no Rio de Janeiro. Sobre seu início da poesia, Lara falou ao Jornaleco, de Nova Friburgo, em 2003:

"Eu tinha uns seis anos. Bom, aí, um dia no colégio uma menina me disse: Lara faz um versinho para o meu cachorro; e eu respondi: faça você, é tão simples! Ela disse assim: Mas eu não sei! Então, quando ela disse “eu não sei”, eu me descobri como uma pessoa errada, era como se eu fosse corcunda, eu pensei que todo mundo soubesse escrever poesia. Então quando eu descobri que nem todo mundo sabia escrever poesia, eu passei a escrever escondida. Eu me escondia pensando: Meu Deus, fazer poesia é uma coisa esquisita. Tanto assim que, a primeira vez que eu escrevi pra uma revista na faculdade, na PUC de Porto Alegre, o meu tio encontrou um professor meu que disse pra ele: meus parabéns; e o meu tio: Parabéns porquê? Pela sua sobrinha que tirou o primeiro lugar de poesia. Aí descobriram, na minha casa, que eu escrevia poesia. Aquilo pra mim foi um choque terrível. Quando me perguntaram sobre o que eu tinha escrito, eu comecei a chorar. Porque eu achava aquilo uma coisa tão íntima, tão pessoal. Como religião, uma coisa íntima que se as pessoas querem mexer com isto, me faz muito mal. Amor, poesia, religião, e escovar os dentes, são coisas muito íntimas."

Lara de Lemos concluiu, em 1945, o curso de História e Geografia na PUC/RS, onde também se formou em Pedagogia, em 1951. Dois anos depois, terminou o curso de Língua Inglesa e Literatura Contemporânea da Southern Methodist University, em Dallas (Estados Unidos). Seus primeiros trabalhos literários, Homem no Bar e Mulher Só, foram publicados em 1955, na Revista do Globo. Em 1959, foi co-autora do Hino da Legalidade, do movimento popular pela posse de João Goulart. Entre 1957 e 1994 colaborou em periódicos gaúchos como Correio do Povo, e cariocas, como Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa. De 1966 a 1978, foi coordenadora da Seção de Estudos de Relatórios Anuais de Estabelecimentos de Ensino Secundário, funcionária do Departamento de Assuntos Universitários e técnica em Assuntos Educacionais, no Rio de Janeiro RJ. Nos anos de 1970, foi membro do Conselho Editorial da Editora Expressão e Cultura, professora-assistente de Economia Política da Faculdade Cândido Mendes e conferencista. Fazem parte de sua obra poética os livros Poço das Águas Vivas (1957), Canto Breve (1962), Aura Amara (1969), Palavravara (1986) e Águas da Memória (1990), entre outros. Sobre sua poesia, de tendência contemporânea, afirmou o o crítico Gilberto de Mendonça Telles: "o que se conta na poesia de Lara de Lemos é o que, felizmente, constitui a maior parte de sua obra: são os poemas de corte tradicional, onde uma e outra preocupação da retórica vanguardista não chega a desequilibrar a armadura do poema. (...) É aí que a poetisa consegue excelentes resultados, tornando-se uma das melhores poetisas brasileiras da atualidade."


Poemas
Cantiga do Pressentir

A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.

Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.

E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.

Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.

*********************

Legado

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.

Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.

Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.

Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.


*******************


POEMA
                                

Para isso vim...
Não, não foi para isso que cheguei.

Vim para dar-te o pássaro, inédito de vôos,
que há em mim.

Vim para secar o pranto
desse alguém que não és, mas que sonhei.

Vim para ver-te como queria que fosses
-tão indizível em mim. Tão indizível!

Vim para o refúgio da noite
e o doloroso presságio das manhãs.

Vim - campo, rosa, nuvem, pedra,
rio adormecido, luz.
  
Para isso vim e perdi-me.

**********************

Penélope

Para Lígia M. Averbuck

No tear pequeno
teço os fios
da minha vida
teço o tédio.

No tear do tempo
teço teia in-
consistente
teço o verso.

No tear do Universo
teço o verbo
solitário
teço o poema.

No tear do medo
teço o pano
derradeiro
teço o sudário.


*****************

IV [Trazes os olhos derramando estrelas.]

A Cecília Meireles

Trazes os olhos derramando estrelas.
Foges de ti por tudo o que te cerca.
Teu roteiro é a Rosa-Ventania
apontando além de tuas fronteiras.

Nos limites do mundo crias espaços
por onde segues crente e arrebatada,
repartindo teus dias, teus abraços,
teu jardim, tuas fontes, teus segredos.

Renasces a cada morte prematura
com tesouro maior e mais profundo,
à grandeza do amor acostumada.

Inventando canções enternecidas,
prossegues com teu cântaro de sonhos
reverdecendo em cada madrugada.

*******************

TELEGR / AMOR
( Para Mario Quintana)
                              

Viajo em ventos
de saudade. A distância
é ponte alada.
Vôo alto.

Busco o encontro
como quem abrisse
uma porta fechada.
Há muito.

**************

PAVANA

Foi um amor precário
de exilados
que se salvam a dois
no mesmo abraço.

Foi um amor, depois
do amor passado.
Favo de mel sem mel
sabendo a amargo.

Foi um amor de crivos
não plantados
mas nascidos em nós
a cada agravo.

Foi um amor, amor
de desamados
que se amam com fúria
e desagravo.

Foi um amor de vivos
enterrados
que o beijo ressuscita
com seu travo.
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Uma Rede de Trocas é uma união voluntária de cidadãs e cidadãos que estabelecem um intercâmbio de talentos, serviços, mercadorias e favores. Leia +
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