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Fernando Pessoa
1888 - 1935

Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.

É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando e estudando no idioma. Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura, onde se desdobrou em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia.

Morreu de problemas hepáticos aos 47 anos na mesma cidade onde nasceu, tendo sua última frase sido escrita na língua inglesa, com toda a simplicidade que a liberdade poética sempre lhe concedeu: "I know not what tomorrow will bring... " ("Eu não sei o que o amanhã trará").
Poemas
de Fernando Pessoa

PALAVRAS DE PÓRTICO

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso;  viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,    
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário;  o que é necessário é criar.  
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.  
Só quero torná-la grande,    
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;    
ainda que para isso tenha de a perder como minha.  
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue    
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir  
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

[Nota de SF
"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]

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X. MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal  
São lágrimas de Portugal!  
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,  
Quantos filhos em vão rezaram!  
Quantas noivas ficaram por casar  
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena  
Se a alma não é pequena.  
Quem quer passar além do Bojador  
Tem que passar além da dor.  
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,  
Mas nele é que espelhou o céu.  

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Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Emissário de um rei desconhecido

Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há ! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...

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Entre o luar e a folhagem

Entre o luar e a folhagem,  
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,  
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz ?
O que sou dele a quem sorri ?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

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IX - Sou um Guardador de Rebanhos

( Alberto Caeiro)

Sou um guardador de rebanhos.
     O rebanho é os meus pensamentos
     E os meus pensamentos são todos sensações.
     Penso com os olhos e com os ouvidos
     E com as mãos e os pés
     E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
     E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor  
     Me sinto triste de gozá-lo tanto.  
     E me deito ao comprido na erva,  
     E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,  
     Sei a verdade e sou feliz.

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Para ser grande, sê inteiro: nada

( Ricardo Reis)

Para ser grande, sê inteiro: nada  
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és  
         No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a Lua toda  
        Brilha, porque alta vive

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Todas as Cartas de Amor são Ridículas
(Álvaro De Campos)

Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,  
       Como as outras,
       Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,  
       Têm de ser
       Ridículas.

Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram  
       Cartas de amor  
       É que são
       Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia  
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

A verdade é que hoje  
       As minhas memórias  
       Dessas cartas de amor  
       É que são
       Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)
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