Com o fim da Copa do Mundo e a desclassificação do Brasil, encerra-se a chamada “Era Dunga”. Depois da eleição presidencial deste ano, encerra-se a “Era Lula”.
Com seu estilo raivoso, arrogante e destemperado, Dunga pregava um futebol de resultados sem a beleza, a criatividade e a arte que caracterizou o estilo de jogar dos brasileiros, estilo esse que teve seu apogeu na seleção de 70.
O estilo Lula, por sua vez, é o de uma política de resultados, se esquecendo da “política arte” dos anos de resistência à ditadura. Nessa época, a esquerda brasileira sonhava com uma política honesta, que estimulava a participação e o aumento da consciência crítica do povo brasileiro.
Acontece que o futebol mudou, como também o mundo da política. No futebol globalizado ocorreu uma homogeneização do estilo do jogo. Agora ele é defensivo, mais dependente da força física e da disciplina tática do que do talento e da criatividade individual.
Ao contrário, a política deixou de ser uma atividade coletiva para se tornar um empreendimento individualista no qual cada político está mais interessado no seu desempenho eleitoral e nos negócios que um cargo público pode lhe proporcionar do que nas grandes questões nacionais. Daí ter se tornado corriqueiro os mensalões e as demais práticas de corrupção política.
A maneira como o brasileiro torce por sua seleção é nitidamente uma compensação de um complexo de inferioridade nacional que expressa a distância entre o que poderíamos ter sido enquanto nação e o que somos de fato.
Tanto a política quanto o futebol têm uma função educativa e civilizatória muito importante. Na Copa do Mundo, o fervor cívico de cada um pelo seu país é relativizado em função de uma paixão maior que todos os nacionalismos: a paixão pelo futebol.
Da mesma forma, na política as diferenças ideológicas entre os partidos, são suplantadas pelo respeito à República e suas regras de impessoalidade, transparência, alternância de poder e separação entre os Três Poderes.
Sendo assim, devemos reconhecer as qualidades do futebol das seleções que brilharam nesta Copa: Espanha, Holanda, Alemanha e Uruguai.
Do mesmo modo, devemos também reconhecer que o Brasil, em termos sócio-econômicos, tem muito a melhorar e que nem Lula nem o PT são os únicos responsáveis por todos os avanços obtidos nos últimos anos.
O crescimento econômico atual não é um fenômeno unicamente brasileiro, mas sim dos países com grande território e população e que se industrializaram tardiamente, os quais foram chamados de BRICs (Brasil Rússia, China e Índia).
Concluo citando trecho do editorial do jornal Folha de São Paulo de 6 de julho sobre um artigo do economista e Jornalista britânico Martin Wolf, que demonstra que não estamos assim com essa bola toda:
“Apesar do inestimável valor da consolidação da democracia e da estabilidade econômica, o articulista lembrava que o crescimento médio do país ficou em 2,9% ao ano entre 1995 e 2009. No mesmo período, a elevação da renda foi de apenas 22%, ante 100% na Índia e 226% na China. Como resultado, “a parcela brasileira na produção mundial caiu de 3,1% em 1995 para 2,9% em 2009. A China saltou de 5,7% para 12,5%, e a Índia, de 3,2% para 5,1%”” (...) “Apesar de o crescimento do Brasil ter superado o dos EUA nos últimos seis anos, a diferença de nível de renda entre brasileiros e norte-americanos é maior agora do que foi em 1980”.
Bem vindos à nova era!