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            Ao longo do século XIX nossa riqueza florestal e aquática foi descrita por inúmeros viajantes-pesquisadores que se embrenharam mata adentro e recolheram inúmeros exemplares de espécies para pesquisas. Martius, Saint-Hilaire, Debret, Burmeister, Tchudi, Mawe nos legaram uma obra essencial na qual exaltaram a biodiversidade. Alguns já lamentavam o desmatamento provocado pela monocultura,

           Ao longo de séculos o país alargou sua fronteira agrícola deixando um legado de miséria social e destruição ambiental. Este processo que está na raiz da ocupação territorial e agrícola do país ao invés de ser combatido está ganhando novo alento com a proposta de revisão do Código Florestal formulada pelo deputado Aldo Rebelo (PCdo B).

           A pretexto de ampliar terras para agricultura e assegurar mais alimentos põe em risco a biodiversidade florestal. O projeto anistia desmatadores, reduz as áreas de preservação ambiental próximas a rios e diminui a margem de presença florestal.  Ele se posa de defensor do agricultor, quando, na verdade, existe superprodução de alimentos em vários setores e abundância de terra disponível. As dificuldades do pequeno produtor não derivam de falta de terra e sim de latifúndios improdutivos, além de apropriação de lucros pela rede comercial. As dificuldades do pequeno são outras.

            A proposta tem sido apoiada pela bancada ruralista que há muito vem liquidando a floresta, transformando terra em pasto ou em produtos de exportação com ganhos sociais restritos, uso de agrotóxicos e expulsão do homem do campo e mesmo da floresta. É impressionante que o autor desta proposta se diga comunista, insistindo na verdade na persistência do modelo concentrador capitalista.

                Embora pouco percebido 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade.  Segundo Alan Charlton, embaixador do Reino Unido no Brasil, o Brasil abriga um quinto de todas as espécies conhecidas e dois terços das florestas tropicais existentes. Sem dúvida, uma posição singular que pode fazer do país uma potência para uma nova era. Para isto é preciso adotar uma posição firme em favor da biodiversidade e do homem da floresta e não sucumbir a interesses imediatistas de cobiça econômica que vão da especulação de terra ao  abatimento florestal  para gerar pecuária, venda de madeira, exploração de minérios  e gêneros de exportação..

              Estamos ainda longe, muito longe de aproveitamento desta riqueza natural. Não só milhares de espécies ainda são praticamente desconhecidas, como sua pesquisa é relegada a um plano secundário.  O colonialismo cultural e econômico nos leva a importar medicamentos. Tanto nossa alimentação como a medicação optaram por soluções químicas. A própria produção há 40 anos vem enveredando pelo amplo emprego de agrotóxicos e agora se curvando às fórmulas da engenharia genética dominadas por empresas como a Monsanto.                                                                                                        Soluções naturais, farmácias comunitárias, conhecimento e pesquisas  fitoquímicas são muito limitadas e não contam com o apoio da mídia formadora de opinião, mais suscetível aos pagamentos de grandes empresas e laboratórios.

Pensando na região serrana e adjacências, lembro o exemplo de Theodor Peckolt que chegou a se instalar em Cantagalo no século XIX onde possuía uma farmácia e de onde empreendia incursões na Mata Atlântica. Exemplo de pesquisa  que se baseou em espécies como a Lágrima de Nossa Senhora, e outras cujos efeitos terapêuticos foram constatados. Em Nova Friburgo, onde o prefeito cunhou a expressão cidade-parque, para que isto se torne efetivo são necessárias medidas de despoluição das águas, contenção do desmatamento, desenvolvimento da pesquisa e processamento sustentável da floresta. Este é o investimento da Nova Era.

Por: Jorge Miguel Mayer - alegria@netflash.com.br
O autor é professor de História da Universidade Federal Fluminense



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